ROBERTO B. DA S. SÁ
Neste artigo, continuo imerso no mundo zoo. Na semana anterior, tratei de ofídios e lacertílios (cobras e lagartos): dois répteis que serviram de metáforas para ações rasteiras praticadas por políticos do emergente Partido da ordem: o PT. Se fosse possível, eu deveria por respeito aos animais irracionais lhes pedir desculpas por ter lançado mão desse tipo de comparação. Ao final das reflexões, lembro que solicitei ao Deputado Federal daquele Partido denunciado de exercer estranhas influências em órgãos públicos que ele próprio, por dever do ofício, deveria se antecipar, exigindo provas da acusadora: a Senadora de seu próprio Partido! Você fez isso, leitor? Até onde sei: boquinha de siri. Mais um pedido de perdão; agora, aos siris. Talvez só o Ministério Público pudesse intervir nesse caso. Pronto. A partir de agora, neste texto, não estabelecerei comparação de ações humanas com qualquer animal irracional. Como um ser que busca informar-se sobre o dia-a-dia, inicio lamentando que nem o Pato e nem o Ganso tenham sido chamados para safáris na África do Sul. A ausência, principalmente a do Ganso, provocou algumas piadas feitas, como: você queria o Ganso dentro ou fora (da seleção)? O responsável (??) pela convocação ficou em cima do muro: nem dentro nem fora, mas de tocaia. Na primeira brecha se houver o Ganso pode entrar rapidinho e ninguém mais reclama. Mas por falar em Ganso, sexta-feira passada, em um dos programas de reportagem de TV, vi um deles de verdade; ou seja, uma ave anseriforme (ganso), que num passado remoto de nossa civilização, é bom lembrar, emprestava seus remígios (penas) para que os escribas animais racionais pudessem escrever; isso se dera antes do uso das penas metálicas e muito antes de tais penas metálicas se tornarem um dos objetos de deferência em sociedades capitalistas, principalmente. Pois bem. O tal ganso parecia gente, acompanhando seu dono em diversos locais de uma cidadezinha; até em porta eletrônica de banco, o ganso entrava! Ações ou atitudes intrigantes de outros animais irracionais (cachorros, gatos, cavalos, bezerros, papagaios et alii) também foram apresentadas. Ao final do programa, um questionamento: os humanos não estariam humanizando demais os bichos? É possível que sim, mas o oposto do que está posto há muito tempo, com certeza; ou seja, os animais racionais (humanos) estão se apresentado cada vez mais irracionais. Sobre essa inversão, em 1936, o poeta Manuel Bandeira, por conta de uma corrida de cavalos, publicou o poema Rondó do Jockey Club. O refrão desse texto Os cavalinhos correndo// E nós, cavalões, comendo já trata da antropomorfização (humanização) dos animais e da zoomorfização dos humanos. Vale lembrar que Bandeira viveu nas décadas iniciais do desumano processo nacional de industrialização. Acerca do poema de Bandeira, o crítico Antônio Candido mostra, dentre outros, que a pontuação (no caso, as vírgulas) é um dos ricos recursos do texto. No primeiro verso, observa-se um ritmo corredio que faz lembrar os carrosséis de brinquedo, numa verdadeira humanização dos cavalos. Em contrapartida, as vírgulas do segundo verso servem para sugerir um forte movimento de galope. Se aquelas vírgulas forem lidas de forma bem marcada (staccato), a sugestão toca a imitação do trotear dos eqüinos. Essa leitura é reforçada por meio do aumentativo e diminutivo do termo cavalo: cavalinhos para os animais que correm; cavalões para os humanos que comem. E assim temos caminhado: para a mais profunda desumanização. Os exemplos são intermináveis. Marx tinha mesmo razão quando dizia: nada do que é humano me é estranho. Mesmo assim, intrigou-me ver uma Procuradora sendo wanted (procurada) pela Justiça por ter espancado uma criança de tenra idade. Ao ver aquela figura capturada, ainda que disfarçada com um exótico turbante, foi difícil não lembrar das bruxas medievais: daquelas que, no universo do maravilhoso infantil, ofereciam às crianças poção com asas de morcegos e rabo de lagartixa. * ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ - Dr. em Jornalismo/USP. É Prof. de Literatura da UFMT
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