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ARTIGO
Quinta-feira, 22 de Fevereiro de 2007, 20h:06

ONOFRE RIBEIRO

Mostrar ou não mostrar imagens?

Na edição de quarta-feira de cinzas, dois programas de televisão da capital mostraram detalhadamente as imagens do acidente com uma avião de acrobacias em Santo Antonio de Leverger, a 30 km de Cuiabá. Morreram um coronel da Aeronáutica e um piloto comercial. Estava em casa pela manhã, e vi, no programa policial “Comando Geral”, o jornalista Maksuês Leite anunciar com estardalhaço a posse de imagens exclusivas do acidente. Usou adjetivos como “imagens terríveis”, “imagens pavorosas”. Segurou o programa inteiro, como manda a boa regra televisiva nesses casos. E, de fato, mostrou as imagens captadas por um desses inexplicáveis cinegrafistas amadores que sempre estão por perto das tragédias. Foram 12 minutos de imagens fortes mesmo, que não vi por absoluto desinteresse e, também, para não me impressionar. À noite, no programa “Resumo do Dia”, o apresentador Roberto França fez o mesmo estardalhaço e mostrou as imagens da manhã, editadas um pouco mais moderadas, sem, contudo, conter a agressividade. O assunto veio à tona no almoço de ontem, contadas pelo meu filho Tiago, estudante de publicidade. Ele estava indignado com a mostra das imagens que assistiu, e me perguntou se isso podia ser exibido impunemente. Disse-lhe que poder exibir, pode. O que distingue o que deve ou não ir ao ar nas televisões, quando a lei não impede, é o puro bom senso dos editores. Numa disputa de audiência no mesmo horário dentro da programação local, vale tudo. Mas o vale-tudo nunca foi o ideal da comunicação. Por outro lado, não se pode condenar simplesmente. Tudo isso está dentro de um quadro de violência generalizado, onde uma tragédia a mais já não afeta ninguém. Aliás, ao contrário, é sempre uma novidade mórbida, porque uma hora é um túnel do metrô que desaba por irresponsabilidade técnica, outra hora é o menino João Hélio arrastado no Rio de Janeiro, outra é mais um massacre num morro do Rio de Janeiro, etc. etc. A sociedade está perdida nessa falta de referência, a imprensa faz o que quer, e mostra qualquer coisa em nome da audiência. Objetivamente há que se dizer que, mesmo a lei não proibindo, há limites. A vida humana é um patrimônio individual, mas ela compõe o coletivo social. Mostrar corpos carbonizados e deformados dentro dos caixões do IML é crueldade. Por certo que deu muito boa audiência, mas o estrago social acaba sendo maior. Sabe por quê? No dia em que nós precisarmos da indignação coletiva mato-grossense ou brasileira para uma tomada de posição, a banalização das coisas cruéis terá sido tão massificada que ninguém mais se emocionará se outro João Hélio for arrastado por um automóvel dirigido por bandidos. Ou se uma família inteira for massacrada por bandidos. Diz a estratégia militar que mais difícil do que mobilizar meios para uma guerra, é desmobilizá-los depois. A censura nunca foi boa conselheira, mas o abuso do bom senso menos ainda. Pode-se mostrar a tragédia dando-lhe a dimensão sem agredir com imagens cruéis. Desmobilizar a indiferença será uma tarefa terrível no futuro. * ONOFRE RIBEIRO é articulista deste jornal e da revista RDM [email protected]

Edição EDIÇÃO 16968




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