ARTIGO
Segunda-feira, 28 de Maio de 2012, 20h:23
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LORENZO FALCÃO
Minhas crônicas
O hábito de escrever semanalmente aqui neste espaço é um prazer que tenho cultivado. É muito diferente da função de editor que exerço no caderno de cultura deste jornal, que também me é prazerosa. Mas, aqui, a nada estou preso. Meu tema é livre. E estou entre aqueles que acreditam que escrever tem muito a ver com liberdade. Gosto muito de seus textos e sempre os espero nas terças-feiras, disse-me um conhecido das antigas outro dia num encontro casual. Claro que fiquei me achando. Ele elogiou minhas crônicas urbanas e destacou uma que escrevi há uns dois anos, na qual, discorri sobre a morte de um gato Coquinho, que entrou aqui em casa um dia e o adotamos. De fato, escrever sobre o que nos cerca, sobre o que vemos e sentimos ao longo do dia, reverbera muito mais emoção. Cronistas, em geral, precisam de algo mais para tecer seus textos. Necessitam ir além do factual para compor uma crônica verdadeira. E esse algo mais, quero crer, bate em cada um de nós de forma diferenciada. No meu caso particular, descobri que me movimentar fisicamente, me transportar de um lugar para o outro, ajuda um bocado. A inspiração vem que vem. Só que preciso estar totalmente à toa nesse percurso do movimento. Pegar um ônibus, claro que não num horário de pico, e ir de um lugar a outro olhando a cidade e as pessoas, por exemplo, é sempre uma experiência propícia a se transformar numa crônica. O que acontece é que desde outubro do ano passado troquei o transporte coletivo por um carro popular. Tenho mais conforto e me locomovo muito mais rápido. Mas, em contrapartida, minhas crônicas urbanas esmaeceram. Se fosse pra escrever crônicas a partir de minhas vivências como motorista, a andar pela cidade nesse trânsito doido... sei não. Pode até ser que os escritos fossem saindo, mas sempre com os palavrões a tiracolo. Não tenho nada contra os palavrões, mas prefiro praticá-los motivado pelo humor, e não por desabafo ou raiva. Quisera eu ser que nem o Manoel de Barros que, deitado numa rede, consegue acompanhar a lentidão da travessia de uma lesma, com seu rastro molhado, numa tarde pantaneira. E depois transformar isso numa bela poesia de cinco ou seis versos. Outra coisa que me é também uma conquista, mas que talvez não seja muito producente em matéria de escrever, é que tenho trabalhado quase que só em casa, no aconchego do lar. A solidão é ótima companheira para se escrever. Dizia Clarice Lispector que a solidão era o mais precioso de todos os bens, por ser intransferível. Entre Manoel + Clarice e eu, alguma dimensão abissal habita. E nem vou falar mais nada, a não ser, registrar o meu temor de que minhas crônicas comecem a soar como aqueles filmes de arte que são um pé no saco. LORENZO FALCÃO é editor do DC Ilustrado e escreve veste espaço às terças-feiras tyrannusmelancholicus.blogspot.com