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ARTIGO
Segunda-feira, 22 de Março de 2010, 21h:16

LORENZO FALCÃO*

Mantenedores da utopia

Mantenedora da utopia. Gostei disso e a ex-ministra Marina Silva conquistou a minha simpatia quando fiquei sabendo que se autodefiniu dessa forma em palestra que fez aqui em Cuiabá. Gosto dessas coisas... Utopia, sonho, quimera e por aí vai. Ruim mesmo são os pesadelos. A melhor coisa a fazer, quando se tem um pesadelo é acordar para a vida, essa dura e implacável realidade onde o sonho e a utopia precisam habitar. É que eles combinam com a esperança. Pois é, mas a Marina disse que era isso. Eu também me julgo meio assim. Nem sei de onde foi direito que saiu aquela frase “o sonho acabou”, comumente associada aos Beatles. Não concordo. Acho que o sonho é diferente do programa do Chacrinha, aquele mesmo que “acaba quando termina”. O sonho, a utopia e companhia limitada são coisas que vão para além do fim. Quando um sonho torna-se realidade, aí a gente trata logo de ter outro, porque a coisa meio que perde a graça. Essa história de acreditar no sonho e de, até certo ponto, mover-se e articular um pouco em função dele, eu acho que tem a ver com a profissão de jornalista. Posso ser acusado de ingênuo, mas, e daí...? É só uma acusação que nem chega a ser calúnia. Melhor ingênuo do que incrédulo. Muitos amigos e conhecidos, jornalistas mais antigos, já estão à deriva... Escrevem porque têm que fazê-lo. Já os mais novos usam a palavra para expressar um pouco da esperança e de uma certa nobreza de seus sentimentos, seus anseios. Eu sempre gostei de dizer que escrevo para mudar o mundo. Pode soar um pouco pretensioso, mas é que é melhor superestimar meu texto, do que subestimá-lo. Acredito que as pessoas vão ler o que escrevo e mesmo com tantas brincadeiras, aforismos, pegadinhas e incertezas que costumo relatar, sempre tem um caldinho de verdade que analisa e filosofa em torno de uma situação real que precisa ser questionada. Ademais, acho que está cada dia mais claro que o mundo muda e muda mesmo pra valer. Sei que do ponto de vista ambiental, por exemplo, a coisa está feia. O pouco que é feito em termos práticos, não tem se mostrado mais suficiente. É preciso agir mais incisivamente. Já social ou politicamente, há 30 anos, por exemplo, seria impossível acreditar que os Estados Unidos seria governado por um presidente negro, ou que o Brasil teria como presidente um ex-operário. Então, por essas e por outras que ainda virão, assim como a Marina Silva, eu também sou mantenedor da utopia. *LORENZO FALCÃO escreve neste espaço todas as terças-feiras

Edição EDIÇÃO 16967




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