Já falei aí para trás e repito hoje. Desde que eu entrei para a escola de economia na gloriosa UFMT, e isso foi há 31 anos, era sabido que quando acabava o inverno no hemisfério norte o preço do petróleo caía. Nada mais lógico, pois todas as casas do hemisfério norte são aquecidas com óleo ou com algum substituto que acaba influenciando no seu preço. Não tem como não sentir saudades destes tempos. Lembro do professor falando que quando o preço de um bem sobe a demanda do seu substituo sobe junto e acaba elevando o seu preço, visto que aumento na demanda aumenta o preço do produto demandado. São os neoclássicos tentando o equilíbrio de mercado através da microeconomia. Volto à proposta inicial de falar dos preços do petróleo. Existe uma mentira de que os preços dos commodities estão nas alturas por conta do consumo na Ásia. Outra do crescimento chinês. Daí a explicação do petróleo não respeitar nem o fim do inverno. Falam que pode chegar este ano a 150 dólares o barril. Não é diferente com os preços dos grãos e do minério de ferro, ouro, alumínio e outras commodities. São argumentos que não se sustentam por conta da verdade de que os preços de outros produtos como o frango e a carne bovina estão caindo pelo simples fato que não são negociadas nas bolsas de mercadorias de futuro. Esta picaretagem que Marx chamou de financeirização do capitalismo e Keynes de antecipação da demanda consiste em o produtor vender a produção futura. Na verdade não é ele que vende, é o atravessador ou atravessadores. Já se fala que o volume destes produtos vendidos no mercado futuro significa 10 vezes o valor da produção. O fato é que este volume de papel circulando de mão em mão e sofrendo ágios e deságios mundo a fora acaba criando uma falsa demanda sem qualquer lastro com o consumo real. O preço aumenta mais que a escala de custos e é dado pela remuneração da especulação e sua alta velocidade por conta do uso de tecnologia da informação. Assim como as hipotecas americanas, este abuso acaba contaminando toda economia mundial porque gera ganhos de mentira e estimula uma demanda que não existe, sem contar a demanda oriunda dos ganhos dos produtores destas commodities. Como toda ilusão esta também terá seu fim. Chegará o momento em que as pessoas verão que os produtores não terão como entregar as posições vendidas. Todos correrão para desfazer destas promessas e ai alguém vai ficar com o papel. É igual àquela brincadeira de criança de gata parida. Alguém fica de pé porque só tem cadeira para quatro numa brincadeira de cinco. Isto fará um realinhamento de preços e uma meia dúzia deve arrancar os cabelos, mas no final todos estarão vivos. O problema é este realinhamento de preços. Estarão os produtores preparados e com produtividade para agüentá-la? Não sei. No caso das commodities metálicas, talvez. Os grãos, sim. Mas o petróleo será uma catástrofe. Imaginem o que ocorrerá com a Venezuela e sua matriz econômica baseada no óleo? E o gás da Rússia? E o Equador? Irã, Iraque, etc. Termino colocando mais um ingrediente. Todos se lembram do preço do petróleo projetado a 70 dólares para o fim deste ano. Por que foi para 150? Pelo simples fato da migração de fundos de investimentos e outros picaretas mais que estavam enfiados em hipotecas americanas e correram para o mercado de futuros de mercadorias. Até os agentes serão os mesmos. * PAULO RONAN é economista
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