Esta semana acompanhei dramas familiares antagônicos que têm a questão da droga como ponto central. O primeiro, sobre uma mãe capaz de colocar a própria vida em risco em defesa do filho. O segundo, de pais que põem os filhos em risco usando um modelo distorcido e criminoso de busca do sustento familiar. As histórias se passam em Sapezal, uma cidade com pouco mais de 23 mil habitantes, distante 490 quilômetros de Cuiabá. Dizendo-se desesperada, uma mãe ligou para a polícia denunciando traficantes. Correndo risco de morte, ela investigou a atuação dos criminosos e descobriu, entre outras informações, quem eram os donos e como funciona a boca de fumo onde o filho mais comprava droga. E, ainda, o esconderijo de maconha e cocaína. A mãe queria que a batida policial não fosse em vão, como já havia ocorrido antes. Em ações anteriores, os filhos adolescentes do casal de traficantes haviam sido apreendidos na função de aviõezinhos - fazendo entrega de pequenas porções. Por serem menores e alegarem que era droga para consumo próprio, os garotos não ficaram presos. Dessa vez deu certo, como a mãe quis. O casal acusado de tráfico foi preso com droga e dinheiro. A mãe, apavorada com a possibilidade de morte do filho, seja roubando para manter o vício ou por dívidas com o tráfico, venceu apenas um de inúmeros rounds. O menino já estava furtando dinheiro e objetos da família para vender ou trocar na boca. A outra mãe, que introduz os filhos na criminalidade e os expõe a riscos similares, momentaneamente está fora de combate. No meu entendimento, sejam quais forem os argumentos, ninguém espera ou aceita essa postura de uma mãe ou pai, mas sei que esse casal não é o único a agir assim. O que percebo, infelizmente, é que no Brasil não é necessário analisar estatísticas para mostrar que mais e mais jovens estão se envolvendo com as drogas, tornando-se dependentes químicos. Não que os números sejam dispensáveis, ao contrário, são fundamentais para orientação e execução de políticas públicas voltas à prevenção e tratamento dos usuários. De acordo com uma pesquisa realizada em 2012 pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), amplamente divulgada pela imprensa, o Brasil é o segundo maior consumidor mundial de cocaína e derivados, perdendo apenas para os Estados Unidos. Naquela época, quase cinco anos atrás, o país já respondia por 20% do mercado mundial da droga. Mais de 6 milhões de brasileiros já haviam experimentado cocaína ou derivados dessa droga ao longo da vida. O que não cresce mesmo são as medidas públicas de prevenção e tratamento dos dependentes. Prender traficantes e apreender droga ajuda, mas não resolve. ALECY ALVES, repórter do Diário
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