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ARTIGO
Segunda-feira, 12 de Maio de 2008, 20h:39

LEVI MACHADO DE OLIVEIRA

Lula, trinta anos depois

Delfim Neto, antes um fantasma à moda de Drácula para os movimentos proclamados de esquerda, é hoje a figura pública de maior projeção social a se colocar como arauto dos grandes méritos do ex-metalúrgico Lula. Classificam-o como gênio, herói da raça, salvador da pátria etc. Vindo dele, não há porque duvidar: a avaliação é, no mínimo, sincera. Chamado por críticos e admiradores de czar da economia de certo período dos anos de chumbo, Delfim, hoje notório polemista, não deve, até onde a vista alcança, nenhum favor ao atual presidente da República, e como todos sabem, jamais tiveram qualquer afinidade política no passado. Sabe o que diz, e não o faz por bajulação ou favor algum. Concordar ou não com as avaliações do já octogenário ex-professor de economia, é questão de opinião. Os adversários, principalmente os luminares do PSDB, não concordam, é claro! Nem poderiam. Porém o fato inquestionável é que o antigo sindicalista surpreendeu sim, para a alegria de muitos e decepção de uns poucos, como atestam as pesquisas de opinião. Ficará, sem dúvida, na memória do povo brasileiro. Se não por suas realizações, certamente por sua excitante trajetória pessoal. Tudo leva a crer que será pelas duas coisas. Teve sorte? Teve. E daí, sem sorte nem a vida – imensurável realização de cada um de nós – teria sido possível. O ex-ministro faz análise sócio-econômica e tece considerações políticas sobre o momento presente. Seus comentários levam em conta a desenvoltura do atual presidente da República na sua prática diária. Ele não faz previsões. Faz constatações. Mas poucos ousariam fazer semelhantes previsões sobre Luiz Inácio Lula da Silva há trinta anos. Era apenas um sindicalista diferente. E sindicalistas não eram considerados elementos de vanguarda no processo político. Quando muito serviam aos interesses estratégicos de certos partidos, tanto de direita quanto de esquerda. Pois é, há trinta anos Lula esteve em Cuiabá. Participou de alguns encontros com garimpeiros, lá pelas bandas de Poxoréo, e de um evento público organizado pelo MDB, no centro cidade, ao lado da Igreja Matriz. Um arguto observador que por lá passou quando ele discursava escreveu um artigo, publicado no dia seguinte, dizendo sobre o metalúrgico mais ou menos a mesma coisa que hoje do Presidente diz o professor Delfin Neto. O articulista, além dos elogios ao desempenho do orador, vaticinava o futuro do homem e de sua provável futura contribuição para o desenvolvimento do Brasil. Seu nome: Gervásio Leite. Era já um aposentado. Fizera carreira na área do Direito. Havia sido deputado estadual, jornalista e desembargador do Tribunal de Justiça. Não aparentava nenhuma simpatia pelos movimentos de esquerda. Era, no seu tempo, um conservador, embora referência como advogado. Não tinha a pretensão de ser profeta ou vidente, senão poeta, que também era. Mesmo assim, nas suas previsões, acertou em cheio – a menos para os que discordam hoje em dia das opiniões de Delfim Neto. Gervásio Leite não viveu o suficiente para ver confirmadas as suas previsões. Mas sem querer ou pretender, talvez, foi profeta, e dos bons! * LEVI MACHADO DE OLIVEIRA é advogado

Edição EDIÇÃO 16967




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