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ARTIGO
Quarta-feira, 25 de Março de 2009, 21h:50

GABRIEL NOVIS NEVES

Livrai-nos da morte

Participei da Audiência Pública requerida pelos deputados estaduais Guilherme Maluf (PSDB) e José Domingos Fraga (DEM) com a finalidade de discutir o tema: “As Dificuldades e Entraves ao Funcionamento dos Hospitais Privados em Mato Grosso”. Parece uma incoerência discutir a Constituição Federal - que garante saúde a todo cidadão brasileiro e é um dever do Estado - na Assembléia Legislativa. Lei Federal tem que ser cumprida em todo território nacional. Infelizmente neste país de democracia imperial, ninguém está nem aí para a lei. A Audiência Pública foi motivada pelo fechamento em cascata dos hospitais privados do Estado. A reunião na Assembléia Legislativa não tinha caráter de junta médica para salvar o paciente, no caso, os hospitais. Muitos já morreram e outros estão em estado terminal. Os teimosos em sobreviverem estão usando ervas e plantas medicinais por não possuírem recursos para a compra de medicamentos. Cuiabá é um péssimo exemplo para o Estado. Perdemos nos últimos anos centenas de leitos hospitalares e, o pior é que não houve reposição. Com a falência dos hospitais privados do interior e a ausência do Estado, a sobrecarga na nossa já insuficiente rede hospitalar se agravará e é fácil compreender o final da novela. Aquele hospital do Bairro Santa Cruz, que chegou a fazer transplante de coração e tinha um serviço de Medicina à distância, hoje é terreno baldio. O São Tomé, garagem de ambulâncias do SAMU. O Modelo é laboratório e abriga serviços burocráticos. O Neurológico é um prédio abandonado. O Hospital Geral faliu e foi transformado em Hospital Universitário, passando de quatrocentos e cinqüenta leitos para cento e oitenta. A Santa Casa de Misericórdia, com duzentos anos de serviços filantrópicos, reduziu pela metade o seu número de leitos para não fechar suas portas. O Adauto Botelho virou Pronto Atendimento e Ambulatório Psiquiátrico. As Casas de Apoio Psiquiátrico que o substituíram, não atendem a demanda de pacientes e os seus serviços são precários. O Neuropsiquiátrico, na saída para Rondonópolis, virou interrogação para os que por lá passam. Hospitais menores também desapareceram da cidade. Nenhum empresário em perfeitas condições de saúde mental pensa em investir em hospitais. Esta tarefa ficou com os médicos para terem um lugar de trabalho. O Governo Federal desfez-se de quase todos os seus hospitais no Brasil. Mato Grosso é o único Estado deste país cuja capital não possui um Hospital Público e, para nossa vergonha, temos um esqueleto de hospital estadual completando vinte e cinco anos. Toda a responsabilidade da Saúde Pública ficou com as Prefeituras que, debilitadas não conseguem parcerias com os hospitais privados. Estamos diante do precipício. O desastre é iminente. Temos que retroceder e rever alguns pontos considerados inaceitáveis na visão dos gestores públicos da saúde, na sua maioria leigos. Os trabalhadores de saúde são vistos por eles como mafiosos, corruptos, ladrões, aproveitadores, mercantilistas e desqualificados. Este é um grande entrave ao funcionamento dos hospitais privados de Mato Grosso. O Governo tem linhas de financiamento a fundo perdido para os banqueiros falidos, para o pessoal do agronegócio, incentivos fiscais para a instalação de indústrias e até dinheiro guardado para o futebol. Como muito bem falou o Presidente do Hospital Filantrópico de Poconé, “o governo usa o Pantanal como marketing esquecendo que a cidade é a sua porta de entrada.” Reclama que “determinados animais que estão acabando com os pacus, subsistência do seu povo, têm que viver. Animais predadores do hoje escasso rebanho bovino também. Só podem morrer as criancinhas de Poconé.” Existem liminares para a internação dos pacientes, mas inexistem liminares para que o poder público ausente pague as despesas. Creio que uma audiência sobre a sub-sede da Copa seria tratada pelo governo com mais seriedade. Para salvar a saúde a decisão é política. Nós, trabalhadores da saúde, somos técnicos. Iluminai Deus os nossos gestores imperiais e livrai-nos da morte. Amém. * GABRIEL NOVIS NEVES é fundador da Universidade Federal de Mato Grosso e médico em Cuiabá

Edição EDIÇÃO 16964




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