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ARTIGO
Segunda-feira, 17 de Setembro de 2012, 21h:19

LORENZO FALCÃO

Leitura

Aprendi que ler é um ótimo exercício para a imaginação. E dizem que funciona como musculação para o cérebro. Refiro-me aqui ao verbo ler relacionando-o, exclusivamente, com a literatura. É que quando se lê ficção, por exemplo, o leitor acaba interagindo com o escritor. A capacidade imaginativa de quem lê agrega valores ao texto. Enquanto vai lendo, sua cabeça vai concebendo as imagens codificadas através das palavras. Não sei não, mas desconfio que isso faz um bem danado pro leitor. Costumo comparar a leitura de um livro com assistir um filme. Não é desmerecer o cinema, mas nessa arte vem tudo prontinho e encaixadinho. A descrição já está ali e você nem precisa imaginar nada. Só que quando por trás desse filme há um grande diretor, de preferência, em estado de 'graça', quem assiste vai se impactar de tal forma com a arte ali expressa, que a experiência assume proporções imensuráveis. Houve um período, nos meus vinte e pouquinhos anos, que morei na casa de tios. Carrego o hábito da leitura desde a alfabetização, praticamente. Lembro-me que, nas horas vagas, quando me deitava na cama para devorar meus livros, algumas vezes, meu tio entrava no quarto e perguntava se eu, por acaso, não estaria doente. Tenho a leitura como um universo paralelo que vem acometendo a minha vida e, confesso, a somatória das coisas que já li resultam no fato de eu saber usar a palavra e gostar de fazer isso. Tenho amigos, também leitores, que não conseguem ler com rapidez. Eu consigo. E isso me ajuda bastante encarar livros e mais livros, um atrás do outro. A casa da gente é o melhor lugar pra ler. Leitura requer intimidade e privacidade. Intimidade para consigo mesmo, inclusive. De uns anos pra cá, desenvolvi uma técnica diferenciada de leitura que, acho, rende bem mais. Como tenho o privilégio de trabalhar em casa e moro num bairro calmo, gosto de ler em voz alta. Da mesma forma que meus olhos captam o texto, meus ouvidos também o escutam e, ainda, exercito as qualidades da fala. Experimentem fazer isso, mas, por favor, façam-no num local reservado e em solidão (ou avisem quem estiver por perto). Porque quem lê, no Brasil, já está meio fora do normal... E se estiver, ainda, "falando sozinho", o risco de ir parar num manicômio torna-se grande. Também preciso fazer uma recomendação antes do ponto final, pra todos que pretendem se aventurar mais e mais na literatura. Aprendam a ser seletivos e busquem evoluir na qualidade do que vão escolher para a leitura. Mas, cuidado... Muito cuidado! A maior parte dos grandes escritores é feita de pessoas problemáticas e envolvidas em loucuradas. Isso pode ser contagioso e existe o risco de você querer sair por aí jogando pedras em vidraças ou nos outros. Aí, já viu, né?! LORENZO FALCÃO é editor do DC Ilustrado e escreve neste espaço às terças-feiras tyrannusmelancholicus.blogspot.com

Edição EDIÇÃO 16962




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