NA HORA
O jornal de Mato Grosso Facebook Facebook twitter youtube

Cuiabá MT, Quinta-feira, 11 de Junho de 2026

ARTIGO
Sábado, 11 de Julho de 2009, 13h:25

MÁRIO M. DE ALMEIDA

Leite de pedrisco

Por mais de uma ocasião, já abordei deste espaço que sou um saudosista da crônica, um gênero de jornalismo cada vez mais ausente das páginas de opinião e dos cadernos dedicados à cultura nos periódicos da mídia impressa. Isso ocorre, talvez, porque bons cronistas estejam escassos na praça ou porque os proprietários e editores dos órgãos de imprensa não se interessam por matérias desse tipo. Sabe-se lá qual a razão para essa carência em nossos jornais, especialmente nos daqui, de textos envolventes, porejando emoções e criativos, que nos retirem, ainda que momentaneamente, da aridez e dureza de um noticiário que, via de regra, retrata mais as mazelas de uma sociedade corroída pela violência e a corrupção entranhadas em seu cotidiano. Onde as misérias humanas se sobressaem e são ressaltadas nas páginas. Ainda que não se encontre uma justificativa plausível para o fato de que não tenhamos maior espaço na imprensa para tratar de assuntos cuja essência representa um lenitivo para mentes sobressaltadas, resta o lamento. Uma pena. Infelizmente, a indústria da informação não sobrevive nesse mercado onde não se pode desconhecer as estripulias de um garoto-problema como Ralf Leite. E ele é apenas um, entre milhares, milhões de jovens (e velhos também) que, nesses dias conturbados, caminham pela existência sem uma bússola para orientá-los. Onde família, que seria a maior referência, está se desmoronando enquanto instituição. Mas, isto já é outro capítulo e pelos seus desdobramentos e complexidade, tem gente mais qualificada do que eu para dissecá-lo, à luz da sociologia e outras ciências pertinentes. Voltando ao Ralf: uma lástima maior quando jovens como ele transportam essa triste rotina na qual estão afundados, que seria menos corrosiva se ficasse restrita à vida particular de cada um deles, para a vida pública. E daí passando a ser um problema de todos, porque, em menor ou maior grau, acabam por prejudicar a sociedade. Que paga os impostos e mantém estruturas públicas que, ao invés de servirem a coletividade de uma forma mais efetiva, palpável e transparente, passam a ser o espaço para a prática de atos danosos à moral, quando não aos cofres públicos ou as duas coisas juntas. Já que é impossível evitá-lo, que bom seria se a gente pudesse contrapor esse “lixo” do noticiário com um texto de um Manoel de Barros, o poeta pantaneiro, nascido no bairro do Porto, mas há décadas “exilado” em Campo Grande e hoje entronizado, com todos os méritos, na galeria dos raros escritores brasileiros que podem ser considerados universais. Embora o que o inspire seja a placidez dos remansos pantaneiros ou dos corichos menos indolentes, que não sabem ficar quietos e empoçados. Que, enfim, não se prestam, ao contrário dos primeiros, de moradia para jacarés preguiçosos. Barros faz poesia nas asas do vento e do tempo, mas tem a prosa leve e lírica de um colibri. De um lirismo com cheiro de água e terra, regado a paus podres e estrume de vaca. Adubo para flores. Alimento para prosa e verso de quem, a exemplo desse poeta ensimesmado, de pouca fala e intensa agitação interior e que sabe, como ninguém antes fez, tirar leite de um pedrisco. De pedra, muitos sabem. * MÁRIO MARQUES DE ALMEIDA é diretor do site e jornal Página Única www.paginaunica.com.br

Edição EDIÇÃO 16960




ENQUETE
Você acredita que a Ferrovia Vicente Vuolo vai chegar a Cuiabá?
Sim. Seria uma questão de tempo. E de interesse.
Não. A Rumo já sinalizou que não é uma prioridade
Tanto faz. Em MT, os políticos não ligam para a obra
PARCIAL