ARTIGO
Sexta-feira, 22 de Outubro de 2010, 19h:22
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RENÊ DIOZ
Lá no Coxipó
Tá achando ruim, parceiro? Pede pra sair! Vai morar num grande centro, vai! Malditos sejam esses que sugam das nossas riquezas e ainda falam mal da nossa terra..., foi o que comentou um leitor a respeito do último artigo que escrevi, mês passado, no qual mostrava minha indignação pelo estado lamentável desta cidade de serviços públicos precários e até outro dia encoberta de fumaça. O comentário deixou preocupação. Confirmou a suspeita de que nosso bairrismo, muitas vezes, chega a uma grave proporção: a gente se cega para os problemas básicos que espantosamente ainda saltam aos olhos e veta o direito dos outros de se indignarem com o que merece indignação. Por que deixar de usar espaços abertos como esse para apontar que, não, os cuiabanos não dispõem hoje de uma cidade decente? É o mínimo que se pode fazer. E acredito que não haja ninguém mais interessado em ver tanto problema estrutural se acumulando numa cidade que já viveu séculos de oportunidades para fazer o mínimo. O pior é que nessas conversas sempre aparece um dizendo Ah, mas no Brasil todo é assim, como se isso fosse suficiente para o eterno acomodamento de um município que agora, diz, quer se tornar empresa (a idéia já vem bem tarde, diga-se de passagem). E o que tira o direito de um forasteiro apontar o que vai e o que não vai bem? Por trás de comentários como o que abre esse texto parece estar tácita uma noção de mérito, de que só quem nasceu aqui merece falar alguma coisa dessa terra. Ao mesmo tempo, nessa fala há indícios de que nosso senso democrático não é lá essas coisas. Pior, são palavras que parecem até um mecanismo de defesa de gente que, no fundo, está ciente das condições de sua cidade, mas que não quer admiti-lo perante tantos forasteiros que vieram aqui em busca de oportunidades, para trabalhar, criar família. Vetar, mesmo que veladamente, o direito de reivindicar qualidade de vida a forasteiros em geral é um desrespeito a tantos que acabaram se tornando cuiabanos de coração. Mas podemos ser mais objetivos ainda. Ora, paus-rodados ou não, quem aqui não tem de pagar imposto? E caro? Está aí mais um sinal de que nossa cidade precisa não só consertar suas falhas estruturais, mas de consciência por parte dos próprios cuiabanos, ávidos por uma cidade melhor que todos merecem. Aliás, cuiabanos como este pacato cidadão aqui, nascido no Hospital Universitário Júlio Muller numa manhã de janeiro de 1988 e registrado num cartório bem ali, no Coxipó. * RENÊ DIÓZ é repórter