Se nos dias de hoje falarmos em jardineiras e baleias, muitos pensarão que estamos nos referindo às mulheres que cultivam jardins ou ao maior mamífero dos oceanos, mas, jamais ligarão esses nomes aos primeiros meios de transporte de passageiros que cortavam os estradões de Mato-Grosso, antigamente. No caso específico do município de Nossa Senhora do Livramento, o aparecimento do primeiro automóvel ocorreu a partir da segunda década do séc. XX, introduzido pelos abastados fazendeiros poconeanos. Tal acontecimento foi marcado por perplexidade e muito medo por parte da população local menos esclarecida. Lembro-me com saudosismo dos amigos José Pompeu Alves da Costa (seo Pompeu) e Eugênio Brito de Carvalho (Eugênio do Bamba), ambos já falecidos, em cujas fontes límpidas e fartas de sabedoria me saciei nas inúmeras e longas conversas acerca da história local e generalidades. E foi sobre do aparecimento do primeiro automóvel que esses dois mestres da cultura popular contaram-me uma coisa bastante curiosa que causou reações diversas na população a ponto de saírem correndo em disparada pelo mato dizendo terem visto um bicho que urrava e soltava fumaça pelas ventas. Também pudera, numa Livramento com característica de cidade provinciana, sem nenhuma ligação com centros evoluídos, uma atitude como essa já era de se esperar. Um dos filhos do médico homeopata livramentense Ciríaco Pompeu Paes de Campos foi quem adquiriu o primeiro automóvel em Livramento. Os meios de transporte coletivo os ônibus aqui apelidados de jardineiras e/ou baleias começaram a se popularizar entre as camadas sociais menos favorecidas a partir de 1927. O seu itinerário tinha como ponto de partida Cuiabá, passando por Várzea-Grande e Livramento tendo Poconé como destino final. No início passavam duas vezes por semana, mas ao longo dos anos foram se estendendo, se ampliando, até ficar como hoje o conhecemos, com paradas com intervalos de quatro em quatro horas. As crianças daquele tempo, no alto da sua simplicidade, inocência e baseando-se apenas no senso comum, diziam a seus pais: _ Olha, mãe! As árvores e os postes estão correndo. Eles passam por nós ligeiro!!! Ainda não possuíam conhecimento das leis da física. Nessa época em que podíamos chamar ônibus de baleia sem ser censurados, ocorreu um fato hilário protagonizado por um cidadão livramentense, que por sinal era analfabeto. Ao ver três conhecidos seus na parada de ônibus à espera da baleia, sem perguntar para onde ia, adentra e se acomoda. Após uma hora de viagem, ele, preocupado, pergunta ao cobrador: _ Moço, tá longe de chegar a Livramento? O cobrador, responde: _ O sr. tá enganado, daqui a vinte minutos chegaremos a Jangada. O homem dá um berro ensurdecedor: Para a baleia, pelo amor de Deus....!!! No meio da noite, o motorista para. Ele desce à beira da estrada, caminha até amanhecer e, no diante seguinte, de carona, consegue chegar a Livramento. *GIZELLY MONTEIRO
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