ARTIGO
Sábado, 27 de Outubro de 2012, 19h:49
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ERNANI DE SOUZA
Intervencionismo desregulado
A crise de 2008 foi um prato cheio para tirar da UTI a esquerda econômica, que agonizava diante do desenvolvimento da economia de mercado mundo afora, inclusive na atual Federação Russa. Segundo o Dossiê da Crise, elaborada pela respeitada AKB Associação Keynesiana Brasileira, a origem da crise não resultou do neoliberalismo econômico preconizado desde o Consenso de Washington em 1988, mas, sim, por uma crise de endividamento de muitas famílias americanas e de imigrantes, que transformaram suas hipotecas derivadas de novas hipotecas numa megabolha especulativa destrutiva ao sistema financeiro americano. A pergunta que ainda se faz é se houve afrouxamento regulador naquela economia ou comportamento irracional por parte dos agentes imobiliários e tomadores de empréstimos hipotecados? Dos trilhões de dólares que se perderam pelo ralo da especulação, tornou-se como conhecimento público, que grande parte desses recursos foram concedidos a emprestadores sem emprego, sem renda e sem perspectivas. O leitor pode estar raciocinando como puderam muitos bancos ter emprestado recursos para clientes com aquelas características? O fato completo é que a renda daqueles emprestadores eram rendas oriundas de empregos informais, e como se tem conhecimento a informalidade não tem autonomia diante do mercado, quer dizer, ela é altamente dependente dos altos e baixos do mercado, efetivamente, do mercado formalizado. Em razão disso, os pagamentos dos compromissos hipotecários foram sendo deixados em segundo plano e a bolha explodiu em fins de 2007, culminando nessa crise especulativo-financeira que demandou um volume considerável de recursos públicos e privados em busca de reorientação da economia daquele país. Apesar desse processo complicadíssimo que envolve risco, credibilidade e confiança no âmbito dos mercados financeiros, em geral, a grande lição que essa crise está deixando aos formuladores de política econômica é que não se pode em nenhum momento confundir o que seja regulação e o que seja intervenção. O respeitado Keynes (ver resenhas sobre seu mais famoso livro: Teoria Geral dos Juros, do Emprego e da Moeda) dizia que a tarefa de moldar a natureza humana não pode ser confundida com a de administrá-la. Portanto, a regulação evita o risco de crises, mas, por outro lado, quando se utiliza de intervenção exagerada na economia e junto às instituições de mercado, jurídicas e sociais criam-se condições para situações de crises de maiores proporções e de maior durabilidade e espectro, assim como vem ocorrendo no Velho Continente, todavia, os países desse continente que estão com maiores e melhores condições de superar a crise foram países que fizeram suas reformas liberais em décadas passadas (Alemanha, Inglaterra, Suíça, etc.) e aqueles que vêm fazendo tais reformas na atualidade como França, Itália e Portugal. Por fim, não se iludam, o Brasil nessa onda de esquerdização da economia (Estado objetivando liderar o processo de crescimento, desenvolvimento é outra coisa) há que se precaver e rever as atuais ações do Estado no que tange aos interesses nacionais-populistas, entretanto, tais interesses não podem sucumbir os interesses sociais e privados, além de que, a iniciativa individual há de ser respeitada e estimulada para preservar seu direito de escolha e independência decisória. Não é demais sugerir aos interessados pelo debate arrolado que busquem o doutor Google e vejam o decálogo que foi consensuado em Washington (1988), e a partir daí o leitor poderá perceber que o liberalismo ali proposto visa corrigir tanto falhas de governo (intervencionismo desregulado) como falhas de mercado (ineficiência produtiva). *ERNANI L. P. DE SOUZA - economista do Niepe/Faet/UFMT e Ms. em Planejamento do Desenvolvimento pela Anpec/UFPA.