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ARTIGO
Terça-feira, 24 de Julho de 2012, 21h:21

GABRIEL NOVIS NEVES

Interpretação

Uma realidade pode ser interpretada pelos números. Quando isso acontece, e acontece com muita frequência, imediatamente lembro-me da definição genial do economista do Livramento - Roberto de Oliveira Campos: “Essa sua interpretação está igual biquíni; mostra tudo e esconde o essencial.” Todo mundo no planeta Terra sabe que a nossa educação é uma das piores. Pois bem, estou lendo uma matéria de uma jornalista de Brasília, dizendo que “as classes C, D e E são maioria nas Universidades Federais.” E mais, “que esse perfil desmitifica a ideia de que a maioria é de famílias ricas.” Continuando a verdade dolorosa: “mas, nas áreas mais concorridas, há poucos de baixa renda.” Entenderam? Prosseguindo, “o percentual de alunos de baixa renda é maior nas instituições de ensino das regiões Norte (69%) e Nordeste (52%) e menor no Sul (33%).” É o que mostra a pesquisa da Associação dos Dirigentes das Instituições de Ensino Superior (Andifes), sobre o perfil dos estudantes das universidades federais. Para a Andifes, o resultado do estudo, que teve por base 22 mil alunos de cursos presenciais, desmitifica a ideia de que a maioria dos estudantes das federais é de família rica. Os dados mostram, entretanto, que o percentual de alunos das classes mais baixas permaneceu estável em relação a outras pesquisas feitas pela entidade em 1997 e 2003. “Os reitores destacam que a inclusão dos estudantes das famílias mais pobres não é a mesma em todos os cursos. Áreas mais concorridas como Medicina, Direito e as Engenharias ainda recebem poucos alunos com esse perfil. Nas universidades federais, os brancos são 53,9%, pretos 8,72%, 32% pardos, e os indígenas menos de 1%. O estudo mostra ainda os egressos de escolas públicas, que representam 44,8% dos estudantes das universidades federais. Outro dado que não pode ser desprezado é que menos de 3% dos universitários leem jornais e 20% dizem que se informam pelos telejornais. A internet é a principal fonte de informação dos universitários de instituições federais: 70%. Um quarto deles participa de atividades culturais e mais de 60% nunca participou do movimento estudantil. Esse é o perfil do estudante universitário das instituições federais. “Ficou claro na pesquisa que, assim como existem no Brasil cidadãos de primeira e segunda classes sociais, no ensino superior temos também os cursos de primeira classe (Medicina, Direito e Engenharias), pouco acessíveis aos alunos pobres, e os denominados cursos “de cuspe”, em que o professor discursa o tempo todo, tendo como laboratórios giz e lousa.” O número de vagas ociosas nos cursos de segunda classe é grande. A educação tem como uma das suas finalidades a melhoria da qualidade de vida dos seus estudantes e da população por eles atendida, que esses cursos não oferecem. No início da nossa UFMT, os considerados cursos de segunda classe, que eram o de formação de professores, funcionavam com 1 (um) a cinco alunos: Matemática, Biologia, Física, Química e Letras. Nessa época, o vestibular era eliminatório, isto é, o aluno era reprovado. As vagas ofertadas não eram preenchidas e ficavam ociosas. Hoje, ninguém é reprovado no vestibular, apenas não se consegue uma boa classificação. Poderá ser preenchida em caso de abandono ou falta de ajuda ao aluno para fazer o curso, mesmo em universidade pública. Infelizmente, o aluno pobre é minoria nos cursos nobres por falta de uma educação básica de qualidade e condições sociais adversas para o enfrentamento com aqueles que foram mais bem preparados. A educação no Brasil não é democrática. Os números estão postos. Meditem sobre o futuro desta nação, cada vez mais desigual e injusta com a sua juventude. É a minha interpretação! *GABRIEL NOVIS NEVES é médico e ex-reitor da UFMT

Edição EDIÇÃO 16968




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