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ARTIGO
Quarta-feira, 25 de Maio de 2011, 20h:32

ANSELMO CARVALHO PINTO

Inglórios e bastardos

Aconteceu com uma pessoa próxima a mim, em compras no supermercado. Já no caixa, a atendente ergueu à altura dos olhos uma revista em cuja capa jazia a figura sinistra de Hitler. “Admiro muito este homem”, suspirou a moça, tentando ser agradável. Por um instante, ocorreu ao cliente dizer que, se vivesse no Brasil nos dias de hoje, Hitler já a teria lançado ao crematório, posto que a cor de sua pele representa tudo o que o Füher mais desprezava. Porém, preferiu ser comedido. “É melhor você se informar mais sobre este homem”, aconselhou. Lembrei-me do episódio do supermercado ao ver a entrevista do cineasta dinamarquês Lars Von Trier, em Cannes, dizendo que tinha simpatia por Hitler e que, “ok, I am a nazi”. Há dois tipos de pessoas capazes de se manifestar simpáticas a Hitler. O primeiro deles é o ignorante, aquele que nem sabe bem o que está dizendo, caso de nossa gentil atendente do supermercado ou destes neonazistas brasileiros - como falar em pureza racial tendo nascido em um país como o Brasil? No segundo grupo estão os autênticos filhotes do nazismo, uma gente que tem sincera reverência aos ideais e às práticas do nacional-socialismo alemão. Lars Von Trier não tem o direito de ignorar a história. Portanto, apesar de seus desesperados apelos e desculpas públicas, é, em minha concepção, um nazista da nova geração. Difícil entender como um dinamarquês pode ter algum tipo de simpatia por Hitler. O Füher invadiu a Dinamarca em um episódio que revela muito de seus métodos e de seu fetiche expansionista. Ao rei, ele sussurrou que era iminente um ataque inglês ao país e que, por isso, iria ocupar a Dinamarca para protegê-la da ira britânica. E que - pasmem! - um não à ocupação alemã seria interpretado como declaração de guerra. Fosse uma conversa entre vizinhos, seria mais ou menos assim: “vou entrar em sua casa e namorar sua mulher, antes que algum galanteador da vizinhança o faça. E se você não aceitar, vou ficar tão ofendido que lhe arrebentarei ao meio”. Surpreendente também é o caso do estilista John Galliano, flagrado em um bar vociferando a um grupo de judeus que ama o Füher. Incensado neste mundinho superficial da moda, Galliano parece não ter tido tempo – ou interesse – de conhecer a história. Habita o grupo dos ignorantes. Ele nasceu em Gibraltar – portanto, tem em seu DNA traços gregos, árabes, holandeses, espanhóis, ingleses... – e é um homossexual assumido, condições que, segundo os padrões de qualidade nazistas, não lhe conferem pedigree nem para virar um pote de graxa na mórbida linha de produção de Auschwitz. ANSELMO CARVALHO Pinto é editor-executivo do Diário

Edição EDIÇÃO 16964




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