Recentemente a principal rede de TV do país exibiu uma reportagem na qual um grupo de menores de Cuiabá envolvidos com drogas aterrorizava vítimas em frequentes assaltos a um posto de gasolina. As imagens, embora retratem um grave problema social, não são exclusividade da nossa Capital, já que o aumento do número de menores é visível a cada dia em cidades como Fortaleza, Salvador e nos chamados Estados pólos como São Paulo e em especial no Rio de Janeiro, onde as crianças dos morros cariocas se 'encantam' com dinheiro fácil originado do mundo das drogas. Sempre que vejo uma discussão a respeito de assaltos e outros crimes envolvendo as classes adolescentes de classes mais pobres, lembro-me de uma frase do escritor chileno Ariel Dorfmam em entrevista a uma revista semanal. A frase marca tanto, que a carrego comigo: diz o seguinte: "Uma democracia de verdade só funciona se houver uma lei igual para todos. No momento em que a lei favorece os ricos contra os pobres, os militares contra os civis, as multinacionais contra as nacionais, então se cria uma semi-democracia. E evidentemente cria-se uma insatisfação, pois a impunidade dos poderosos torna o crime como opção constante dos menos poderosos". Além da desestrutura familiar e a alta quantia em dinheiro que o envolvimento com as drogas oferece, a falta de confiança na aplicação das leis aos poderosos (leia-se políticos), sempre exibidos pela imprensa como os que desviam milhões do dinheiro oriundo do pagamento de impostos e continuam impunes recebendo polpudos salários, também serve de revolta às classes mais pobres, sobretudo aos jovens que estão nesta esfera social. São eles que veem os pais trabalharem em empregos que não garantem uma renda que via além da sobrevivência, que nunca dá acesso ao lazer e a produtos - expostos nas vitrines das lojas dos Shoppings Centers -, que sonham em adquirir, afinal estamos na era do consumo e a propaganda defende que apenas o cidadão que tem alto poder aquisitivo atinge a felicidade e o bem-estar. Logicamente que a falta de uma educação de qualidade e a dificuldade de acesso ao ensino superior também são outros problemas que servem de justificativa para o aumento da participação de crianças e adolescentes na criminalidade, assim como uma série de outros fatores, inclusive a falta de políticas públicas consistentes. Está na hora de educar melhor nossas crianças e reeducar aqueles que estão no mundo do crime, mas também é hora de reeducar a classe política, punindo de forma mais rígida aquele que comete o pior crime: o desvio do dinheiro público. Aí fica uma curiosidade: o que diferencia a lei do ladrão de caixa de supermercados para o político que faz fortuna com o dinheiro do contribuinte? RAFAEL COSTA é repórter