Mentira deslavada! (Comentário do presidente Lula a respeito da alegação de que a produção de álcool eleva o preço dos alimentos) As multinacionais petrolíferas foram as primeiras a chiar. Sugeriram, com toda a desfaçatez de que são capazes, que a solução para a crise energética que se avizinha e a crise ambiental, já instalada, seja buscada por meio do desenvolvimento de novas tecnologias, não de novos combustíveis. Leia-se etanol. Mais precisamente, álcool extraído da cana, na forma bolada pela criatividade técnica brasileira. Depois desse destemperado pronunciamento do setor do petróleo, reconhecidamente grande responsável pela carestia atual dos gêneros, assumiram o palco as multinacionais de alimentos e bebidas. Os dois segmentos tiveram o desplante de anunciar sua ojeriza se é bem esse o nome correto para definir a estranhíssima reação pelo produto originário da bem sucedida experiência da avançada tecnologia brasileira em termos de combustível. Combustível, seja relembrado, extraído de fontes vegetais renováveis, a custo econômico, não poluente, já produzido entre nós em grande volume e em condições de ser produzido em escala bem mais ampla, a médio e grande prazo, com vistas ao abastecimento além fronteiras. Declarando guerra sem quartel ao etanol, grandes empresas que se notabilizam pela rivalidade no mundo dos negócios resolveram firmar uma aliança em torno de inglória campanha. Pediram, em documento enviado aos 27 dirigentes dos países da Europa, sejam abandonadas as metas de expansão de consumo previstas para os combustíveis vegetais. Mais ainda: sejam impostas severas restrições, de cunho ambiental, ao uso do etanol brasileiro que venha a entrar no mercado europeu. Registre-se, de passagem, que o documento sabe-se lá por que cargas d'água - não teve a divulgação que seria de se desejar nos meios de comunicação do Brasil. É firmado por empresas como a Kellog's, Nestlé, Danone, Heineken, Mars, Pepsico. Os signatários opõem-se, de forma insana, ao projeto dos países europeus de garantirem, até o ano de 2020, que dez por cento de sua frota de veículos seja movida a biocombustíveis. Os fundamentos da petição provocam estupefação. As multinacionais mais poderosas do globo nas áreas alimentar e de bebidas não se mostram preocupadas, um tiquinho que seja, com a crise energética. Sequer com a crise ambiental. Consideram-nas de somenos relevância. O que as aciona, neste instante, é outra questão. Um problema escorado em falsos pressupostos. Em despudorada falácia. Desejam garantir que as matérias-primas utilizadas na fabricação de seus produtos não sofram exagerados aumentos. Alegam, por essa razão, mentirosamente, com intúitos que se colocam em flagrante confronto com os reais interesses dos produtores de alimentos e dos produtores de etanol a partir da cana-de-açúcar, que existe atualmente um consenso internacional no sentido da desaprovação dos combustíveis vegetais. O mercado emergente de etanol estaria, segundo os supra citados cartéis, gerando uma demanda anormal por commodities. Isso constituiria fator preponderante para possíveis altas nos preços dos alimentos. Citam, como fonte, o FMI. Faltam com a verdade. Sonegam a explicação de que o alerta da referida instituição, quanto a eventuais impactos do etanol, dizem respeito unicamente ao produto derivado do milho. Não do produto proveniente da cana. As multinacionais de alimentos não dedicam uma única palavra, em seu descabido manifesto, à orgia de preços do petróleo. Um produto vendido no passado a 10 dólares e que hoje já ultrapassa a barreira dos 140 dólares o barril. Nada dizem acerca dos pesados reflexos do petróleo nos custos dos transportes e insumos agrícolas. Vamos repetir: as críticas aos biocombustíveis brasileiros bebem inspiração em motivos nada edificantes, já detectados em outras circunstâncias. Atrás de tudo se colocam temores externos quanto aos consideráveis avanços que o Brasil vem dando em direção do futuro. * CESAR VANUCCI, jornalista
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