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ARTIGO
Terça-feira, 12 de Junho de 2012, 21h:01

ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ

Greve vibrante

No artigo anterior, falei da greve das Universidades e Institutos Federais. Durante a semana passada, avaliei que a atual greve já estava mostrando a força da base do Sindicato Nacional dos Docentes, o ANDES-SN: algo que há muito tempo não se via. Inesperadamente, um colega da UFMT, por quem tenho enorme respeito, e para quem sempre elogios seus artigos sobre a saúde e a educação públicas, avaliou nossa greve como sendo “sem graça”, além de “desnecessária”. Diante disso, não tardou e outro colega (prof. Juacy Silva), articulista também atento às demandas políticas do país, respondeu-lhe pontualmente os motivos da justeza e força de nossa greve. Assim, dentre tantos tópicos, Juacy lembrou do acordo proposto pelo governo petista, ano passado, e não cumprido. E em minha leitura, foi isso que desencadeou um sentimento de traição poucas vezes sentido entre os docentes das universidades. E isso é tão verdade que acabo de ler, nos informes de meu Sindicato, que a Universidade Federal de Goiás (UFG) também aderiu ao movimento de greve. Isso já faz ultrapassar a marca das cinquenta universidades em greve. O leitor distante dos detalhes que movem a vida nas universidades talvez não saiba da dimensão do fato. Explico: ainda quando Lula presidia o país, um de seus ministros da Educação, cumprindo “determinações superiores” do PT, fomentou a criação – em várias universidades – de um agrupamento de professores, chamado Proifes. A intenção do PT era enfraquecer o ANDES-SN, ou seja, um dos poucos sindicatos do País que não se deixaram cooptar. E a UFG, por meio de sua Seção Sindical (Adufg) embarcou na onda lulo-petista. Logo, se afastou do ANDES-SN. Todavia, como esta greve – repito – é a mais forte das que já vi em vinte anos de atuação político-acadêmica, para minha grata surpresa, li os detalhes de como a UFG deflagrou a greve. Num resumo: os docentes da base atropelaram a diretoria local, que não queria a paralisação. Para tentar impedir esse fato, a diretoria da Adufg fez de tudo: em 24 horas, mudou algumas vezes o local da Assembleia, tentando confundir os professores. Não adiantou. Mais de 400 docentes e mais de 400 discentes estiveram presentes. Foi a maior participação da história da Adufg. Mas a diretoria fez mais: encerrou a Assembleia, sem que essa tivesse sequer sido iniciada, alegando que nem todos estavam devidamente acomodados. Os docentes não tiveram dúvida: assumiram a condução da mesa e deflagraram a greve. Pergunto: isso é “sem graça e desnecessário” ou muito vibrante, num momento da quase morte simbólica das universidades? Diante dessa postura politicamente madura dos colegas da UFG, é muito possível que outras universidades submissas ao PT façam o mesmo. É o que espero. Antes de fechar este artigo, cumprimento o Prof. Antonio C. Máximo, que publicou importante reflexão sobre a pós-graduação nas universidades. Paradoxalmente, a maioria dos colegas que atuam nesse espaço – muitos por “vaidade humana” –, faz o discurso e pratica a “servidão voluntária”. Aos que não sabem, as pós-graduações se permitiram não ter autonomia alguma. Vivem sob “chicotadas” e ordens da Capes, ou seja, de um espaço externo as Universidades. Quiçá esta greve consiga mostrar a esses colegas a necessidade da retomada dos rumos de uma universidade verdadeiramente autônoma. A pós é fundamental nesse processo. É o que também espero ver acontecer. *ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ - dr. em Jornalismo/USP e prof. da UFMT

Edição EDIÇÃO 16968




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