ARTIGO
Terça-feira, 31 de Julho de 2012, 21h:24
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ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ
Greve e gravidade do momento
Universidades e institutos federais estão em greve desde 17/05. O governo Dilma não acreditou que a greve ocorresse; depois, que durasse. Por isso, só apresentou uma proposta dois meses após. Como era indecorosa, cheia de armadilhas, a rejeição foi retumbante. Outra proposta foi apresentada, mas a essência da anterior foi mantida. Mas, por que não aceitamos nada? Porque, além de recomposição salarial verdadeira (e não as mentiras dos tais 45%), precisamos de garantias para a valorização de nosso trabalho. Nas propostas do governo é possível constatar: 1) desconsideração de nossa pauta, pois não propõe um Plano de Reestruturação da Carreira; 2) ataque à autonomia universitária, colocando o MEC como sujeito a definir critérios não explicitados para várias atividades; 3) impedimento à progressão na carreira, quanto ao reenquadramento dos professores hoje próximos da aposentadoria; 4) protelação de aspectos importantes do plano, como tempo na carreira, critérios para avaliação do trabalho docente e outros pontos conceituais. Tudo é deixado para posterior discussão em grupos de trabalhos. Ora, esses grupos já nos são velhos conhecidos. Qualquer docente até mesmo aqueles ligados ao Proifes, que é um tipo de sindicato de professores genuinamente puxa-sacos do PT e congêneres sabe que isso não funciona. Se funcionasse, não estaríamos em greve; afinal, sem contar os anos anteriores, em 2011, foi formado um grupo. Por isso, naquele momento, a greve não ocorreu. Demos crédito ao governo. No entanto, pouco antes das reuniões, o governo petista alegava diarreias, desmarcando os encontros. Por esse desrespeito não podemos passar mais. Chega! Paciência tem limite. Tudo tem de ser firmado na greve. Ou avançamos na proposta em greve ou nos calamos de vez. Agora, se retrocedermos, sem absolutamente nada de concreto, assistiremos à morte por estrangulamento de nossa categoria; logo, a morte da própria Universidade, que já se encontra na UTI. Este é o momento de garra, de guerra. Nesse sentido, peço aos leitores que compreendem a importância de termos universidades públicas com qualidade, que façam intervenções possíveis junto a políticos de todos os partidos. Depois de duas décadas de pauladas ininterruptas no cérebro da Universidade, chegamos ao limite. Não podemos mais permitir a sequência dessa destruição. Afinal, o país já está pagando caro pela falta de qualidade no ensino. As provas da tragédia de nossa educação são visíveis; são constatáveis em cada nova pesquisa. 74% da população não é plenamente alfabetizado; até soletra, mas não compreende o que lê. Pior: saídos desse contingente, 38% dos universitários que são apenas 20% da população estão na mesma situação de semialfabetizados. Estamos perigosamente regredindo, senhores! O real tamanho dessa regressão pode ser mensurado quando olhamos para outros países. O último Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), aplicado em 65 países, expõe o Brasil em 57º lugar em Matemática e na 53ª posição em Linguagem e Ciências. Isso é gravíssimo. Os reflexos dessa ignorância são tão previsíveis quanto assustadores. Finalizo este artigo, pedindo novamente não só a compreensão, mas a participação de todos em nossa greve. Nós, docentes, por respeito à sociedade, precisamos de condições plenas para a autonomia acadêmico-didático-científica, de condições de trabalho. Queremos, sim, a expansão da universidade, mas com a garantia da qualidade. Sem isso, tudo é muito perigoso para o futuro. *ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ - dr. em Jornalismo/USP; prof. De Literatura/UFMT