ARTIGO
Quarta-feira, 02 de Maio de 2007, 21h:35
A
A
JULIANA SCARDUA
Grades de uma cena urbana
Fiquei atônita nesse feriado ao me deparar com a seguinte conclusão: Meus cachorros são mais populares que eu. E não é ironia e muito menos piada sem doce ou sal. Enquanto tentava cumprir o papel de boa dona brincando com os dois cães na frente de casa, ainda sob o respaldo do portão, lá vinha um vizinho ou outro a dizer: Olha como a Athena está bonita. E o Apolo, então, está enorme!. E blábláblá. Era paparico pra cá e pra lá, com direito a abanadas de rabo sem parar. Ciúmes? Talvez. A verdade é que para mim sobraram insólitos oi. Do semblante acuado passei então à ofensiva de tentar puxar aquela velha conversa fiada com uma vizinha, aquela do tipo será que vai chover hoje?. Mas em meio à previsão do tempo, o nome da vizinha não me veio de jeito nenhum à cabeça, mesmo morando com minha família há um ano e meio naquela rua. Enfim, voltei à estaca zero. Em meio à auto-análise que aquela tarde me impôs, decidi então que a famigerada violência urbana pagasse o pato por aquela situação embaraçosa. Ah... Aceitar a pecha de anti-social ou de ema da rua? Jamais! Embora prefira a solidão por várias vezes, é bem verdade que passagens horripilantes que já vivi na Capital me tornaram mais cética, mais neurótica e, por conseguinte, transformaram o portão de casa numa verdadeira fortaleza, de acesso livre para poucos amigos. Não é fácil para ninguém e muito menos para a filha de uma tranqüila cidade do interior sobreviver ilesa, de corpo e mente, a dois assaltos e um seqüestro-relâmpago nessa vida de cidade grande. Depois disso, a reclusão acabou figurando como o subterfúgio mais próximo. Por medo da violência que impera do lado de fora, quantos de nós nos isolamos em nossas casas gradeadas que mais se assemelham a um cárcere privado? Quantos de nós acabamos nos enfiando em condomínios que se aproximam de feudos do mundo moderno, onde o medo da rua e a especulação imobiliária dominam o sonho industrializado de um lar seguro e feliz? Se na Idade Média os feudos eram formados sob a garantia de comida e água aos subservientes da aristocracia européia, hoje trocamos quatro paredes, portões e grades nas janelas pela simples promessa de paz numa cidade onde a insegurança pública ultrapassa os limites do alarmante. No fim das contas, a mesma grade que nos conforta segue paulatinamente nos atrofiando um pouco de vida, de conversa fora, de pequenos momentos de felicidade. Gol para o bandido, grilhões para a sociedade do medo! JULIANA SCARDUA é jornalista