O voto é compulsório no Brasil, mas não existe lei que obrigue o eleitor a conhecer os candidatos, seus lugares no espectro político ou o que pensam da concessão da água. O horário gratuito, anexado à grade das redes abertas de TV, até poderia ser encarado como uma imposição, mas seu efeito sempre foi limitado pelo botão de desliga do controle remoto. Deixar a escolha nas mãos do eleitor, porém, não é algo que agrade aos políticos e seus marqueteiros. É preciso assegurar que o maior número possível de eleitores se familiarize com os escolhidos, ainda que contra a sua vontade. Daí que, em complemento aos já tradicionais santinhos, comícios e carros de som, somos brindados a cada dois anos com um novo arsenal de aporrinhações eleitorais jamais solicitadas. De um dia para o outro, seu endereço eletrônico é incluído em malas diretas. Nas redes sociais, cidadãos que você nunca viu na vida aparecem sorridentes a pedir que você aceite a sua amizade e depois, sabe como é, dê a eles o seu voto de confiança. Na semana passada, um deles começou a telefonar a esmo. Em um único dia, em um espaço de três horas, recebi duas tentativas de contato. Se encarasse a tarefa pessoalmente, eleitor por eleitor, o sujeito continuaria a ser um chato, mas ao menos mostraria algum mérito pelo esforço. Mas é claro que se tratava de uma gravação. Não sei se a tecnologia por trás de tais ligações é ou não acessível (provavelmente não), mas imagine o inferno que se tornaria nossa vida se os quase 500 postulantes ao cargo de vereador em Cuiabá resolvessem seguir o mesmo caminho? Em matéria de absurdos de campanha, porém, nada se compara às cartas endereçadas em 2010 pelo então vice-governador Silval Barbosa às criancinhas de Mato Grosso. Diga ao papai que o Silval é legal, ensinavam as infames correspondências, felizmente ainda não copiadas neste ano. Conhecer em profundidade os candidatos e suas propostas é o melhor caminho para aprimorar nossas escolhas. Deve, porém, ser o resultado de um ato voluntário, fruto da consciência de cada eleitor, jamais uma imposição goela abaixo. Ontem, pela manhã, me peguei imaginando uma campanha ideal: sem qualquer material impresso ou spam, transmitida no rádio e na TV em canais exclusivos e com comícios somente em ginásios e outros locais fechados. Candidatos na rua, sim, para quem quisesse parar e ouvir, mas sem foguetórios, marchas ou carreatas. Meus devaneios, porém, foram bruscamente interrompidos por um carro de som que cruzava lentamente a minha rua. Sem nenhuma misericórdia, o veículo irradiava, em volume máximo, uma inacreditável versão eleitoral do tal tchu-tchá-tchá. É, meus caros, recomeçou! RODRIGO VARGAS é repórter do DIÁRIO
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