ARTIGO
Segunda-feira, 11 de Maio de 2009, 20h:31
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ANTÔNIO P. DE CARVALHO
Gente x mato
Este é o título do quarto livro do reconhecido fotógrafo Pedro Martinelli sobre a Amazônia. Pisou pela primeira vez em solo amazônico quando tinha 20 anos de idade, em companhia dos irmãos sertanistas Villas-Boas, e hoje, próximo dos 60 anos, mostra-nos a triste história da floresta brasileira. Uma verdadeira denúncia! Martinelli ganhou vários prêmios, cobriu guerras, clicou lindas mulheres, trabalhou em copas e olimpíadas, todavia, retornou sempre à selva, fotografando, pescando, cozinhando, conhecendo o dia-a-dia do grande oceano verde. Em uma entrevista a Thaís Oyama da Revista Veja, em novembro do ano passado, o fotógrafo desabafa: Na primeira vez que fui ao mercado de Belém, o Ver-o-Peso, a maré tinha subido e um lixo de cheiro insuportável boiava na entrada do lugar. Isso foi há 30 anos e eu nunca mais parei de ir lá. Pois há trinta anos eu continuo vendo a mesma cena: quando a maré sobe, o mesmo lixo bóia do mesmo jeito e no mesmo lugar. Em Manaus é igual: há décadas, o esgoto é jogado diretamente no Rio Negro, em frente à cidade. A diferença é que essa sujeira está andando cada vez mais para dentro: hoje, as comunidades do interior são todas um lixo só, é pacotinho de batata frita e embalagem de alumínio por todo canto. Então, não adianta o sujeito que mora em São Paulo ficar falando de emissão de carbono, sustentabilidade, manejo sustentável. Na prática, as coisas não mudam. Continuando a sua entrevista-denúncia, Martinelli informa: Regatão é o sujeito que percorre a região num barco que é uma espécie de empório ambulante: vem de Manaus carregado de sandália havaiana, fumo, açúcar, sal, óleo diesel, uns remedinhos. Quando o regatão aporta, o caboclo que não tem dinheiro para comprar a mercadoria faz o quê? Faz escambo com peixe, caça, couro de onça, tartaruga. Tem gente que pega dez tartarugas, faz um furinho em cada casco, passa um barbante amarra todas numa árvore e deixa lá por uns quinze dias, à espera do regatão. Quando o barco chega, elas estão vivinhas e viram moeda. Uma tartaruga vale 5 reais, que é o preço de 1 litro de óleo diesel, ou seja, uma tartaruga. Cinco horas de TV valem uma paca. Para começar a discutir sustentabilidade, tem de discutir qual é a alternativa para o caboclo comprar o diesel dele e continuar a ver TV sem vender tartaruga nem matar paca. O turismo na Amazônia não existe. Existe o turismo internacional, mas turismo brasileiro não tem. E não tem por dois motivos: o primeiro é que é mais fácil ir para a Europa do que ir para Manaus. Quando você planeja uma viagem para a Europa, sabe qual será o seu custo: quanto vai custar o táxi, o trem, o almoço. Você consegue ver pela internet a foto do quarto onde vai ficar. Na Amazônia não tem nada disso. O turista viaja no escuro e o risco de se decepcionar, de ser levado para pescar piranha é muito grande. O segundo motivo é que muitos brasileiros têm uma expectativa errada em relação à Amazônia. Querem ir para ver onça, arara, vitória-régia e índio pelado. O problema é que na Amazônia você nunca vê bicho: pode navegar dias sem enxergar nem um passarinho. E também não vai ver índio, a não ser que vá para o Xingu. Seria muito melhor se o sujeito fosse lá a fim de ver o que é um rio com oito quilômetros de largura, navegar por esse rio e ter uma idéia das dimensões do país que habita. As fotos que compõem o livro são estarrecedoras, mostrando o desprezo às riquezas do nosso país, riquezas que vão acabar e o brasileiro perder a chance de conhecer tudo isso. * ANTÔNIO PADILHA DE CARVALHO é advogado e acadêmico de Geografia da UFMT