Zapeando pela minha TV paga na busca de desfrutar uma promoção que me liberou por três dias canais de filmes que não integram meu pacote, uma agradável surpresa. Parei numa mulher estranha, diferentona, que falava mais do que a boca e apresentava uma inteligência e clareza fora do comum ao se expressar. Primeira providência: apertar a tecla rec. Gravar. Começo a me embasbacar com a ligeireza do raciocínio da mulher, não resisto e busco informações. Fico sabendo que assisto ao documentário Public Speaking, uma produção de 2010, dirigida pelo incrível Martin Scorsese. O nome da figura, Fran Lebowitz. Nunca tinha ouvido falar dela, confesso. Se bem que minha memória não é mais aquela coisa toda. Na internet descubro que ela é americana, judia e lésbica. Nasceu em 1950 e chegou a Nova York em 1970. É escritora, mas há vinte anos nada publica. Ganha a vida falando em público. A edição do filme é primorosa e às vezes a gente nem percebe que de uma palestra em público, a cena passou para uma longa entrevista que é a linha mestra do doc. Na verdade é uma conversa ágil onde o próprio Scorsese é o cara que puxa a língua de Lebowitz. Como se fosse necessário puxar a língua da muié. Ao longo do documentário vão surgindo artistas e outras personalidades que pontificaram na sempre efervescente Nova York, mas que são contemporâneas de Fran. Gente como Andy Wharrol, Serge Gainsbourg, James Baldwin, Thelonius Monk e outros. Já plenamente ambientado com o discurso mordaz e espirituoso dessa lady, cuja fisionomia me lembra o Geoffrey Rush, percebo que a força de suas ideias reside, principalmente, no fato de que ela é muito econômica em suas citações. Imagino que deva ter uma formação cultural esmeradíssima, além do convívio com grandes artistas de sua época. Mas o que sai de sua boca é a contextualização, uma leitura única, sábia e demasiado particular do que outros pensadores (artistas também são pensadores, claro) postularam. Definitivamente, Fran Lebowitz não é uma estação repetidora, como muita gente que tem por aí que não consegue ir além do jardim. Fran Lebowitz, portanto, é o cara. Alguém que não sai emitindo opiniões a bel prazer. Uma pessoa que sabe formular conceitos e desaguá-los nessa realidade singular em que vivemos. Um personagem como Fran é peça rara. Ícone do século XXI. E um cineasta como Martin Scorsese é o que há. Os dois são a cara de NY. A trilha sonora é especial e a música Serge Gainsbourg, New York USA, caiu do céu. Ou do arranha céu. LORENZO FALCÃO é editor do caderno Ilustrado e escreve neste espaço às terças-feiras
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