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Cuiabá MT, Quinta-feira, 11 de Junho de 2026

ARTIGO
Terça-feira, 26 de Abril de 2011, 21h:30

NATACHA WOGEL

Fonte ou calabouço?

A coragem mora na rede e o “amor” ao próximo, também. Isto é fato hoje em dia, não para a maioria que se utiliza dos encantos e (des)serviços da web, mas para muita gente que, através da exposição online se mostra ao mundo de tal forma que jamais se atreveria na vida real. (Será?) Poesias, declarações de amor, ameaças, apologia ao crime e à contravenção, pornografia, desejos secretos, de tudo um pouco você encontra na internet, sobretudo nas páginas de relacionamentos – as mais populares no Brasil: Orkut e Facebook. Vou me ater aos pontos “positivos” do feito. É tão lindo ver a rede de amigos – muitos que nem costumam se ver tanto na vida real – trocando gentilezas, mensagens de coragem, expressões de amor e carinho pela web. Fico tocada com o desprendimento das pessoas em dizer o quanto a outra é importante para elas, seja por qual razão for, com declarações sempre acompanhadas de frases de efeito, poemas sugeridos pela própria rede, máximas de pensadores famosos e coisas do tipo. É de fato um canal para ampliar a afetividade entre aqueles que se conhecem e mal têm tempo de ligar para o outro ou passar para fazer uma visitinha. Muitos demonstram afeição até por aqueles que nem conhecem tanto assim. “Amazing!” Aniversários, nunca mais perdemos. A internet nos avisa. E ir até o aniversariante para dar aquele abraço fraterno já não é mais tão necessário diante das inúmeras ferramentas que a rede de computadores oferece para que você “solte fogos”, “envie flores”, “ascenda velas”, “dê presentes”, dentre vários outros “cyberagrados”. E quando o assunto é religiosidade, comemoração de uma data festiva do calendário religioso, seja lá a qual crença pertencer, todos se tornam bons católicos, judeus, mulçumanos, evangélicos, umbandistas... sempre com belas mensagens de otimismo e renovação. E, mesmo que essas datas desabrochem um sentimento de pesar, tristeza, desencanto, há sempre alguém pronto, na rede, para dar aquele “colinho” de conforto que os amigos carentes necessitam. Enfim, demonstração de carinho, afeto, compaixão nunca é demais. Concordo. Mas vejo um mundo cada vez mais plugado, mesmo que para esse fim, e cada vez menos humanizado ao redor, na perspectiva física, real. Temo que a verdade necessária às relações desapareça em meio às conversas e trocas de gentileza pela web e cada vez mais pessoas se deixem levar por um calabouço de falsas ligações e pela falta de intimidade. NATACHA WOGEL, editora de Cidades

Edição EDIÇÃO 16960




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