ARTIGO
Sábado, 13 de Junho de 2009, 12h:25
A
A
PAULO LEITE
Fantasmas e assombrações
Convenhamos, ocorrem coisas estranhíssimas na Praça Moreira Cabral, de onde emerge solene, eriçada pelo obelisco que marca o centro geodésico da América do Sul, a sede do legislativo cuiabano. Conta uma velha lenda que, em noites sem luar, fantasmas arrastam correntes pelos corredores do Palácio Filinto Muller. Pode ser pura superstição, mas que existe uma maldição por ali, isso existe! Historicamente esse logradouro foi palco de mortes e sofrimento. Antigo Largo da Forca, muitos escravos foram castigados e criminosos executados no terreno onde se edificou, posteriormente, o prédio da chamada Casa do Povo. Essa área sempre foi cercada de misticismo e temores. Os velhos residentes destas cercanias ouviam gritos e gemidos vindos da praça, e alguns juraram ter visto por lá, assombrações e almas penadas. Outro triste episódio entalhou a aura malévola do local. Em 1834, partiu dali a manifestação batizada de Rusga, ou Noite de São Bartolomeu Cuiabana, quando mais de 40 portugueses e estrangeiros foram assassinados por nacionalistas radicais em Mato Grosso. Portanto, o Campo DOurique, ou Largo da Forca, onde repousa hoje a Câmara Municipal de Cuiabá, foi marcado por sangue e tragédias. Parece que os lamentos e a dor ecoam pelas passarelas do tempo. Os velhos fantasmas insistem em assombrar o lugar. Uma maldição paira sobre a cabeça de seus habitantes. Ainda range pelos labirintos dos séculos, o som dos passos que subiam trêmulos os degraus do patíbulo até serem abraçados pela morte em enforcamentos públicos. O zunido do açoite sobre o lombo dos escravos também ficou gravado na memória macabra deste logradouro. Talvez as marcas funestas e perversas destes eventos do passado tenham comprometido espiritualmente a paz e o equilíbrio deste local. Se não, como explicar que enquanto esteve lá, a Assembléia Legislativa de Mato Grosso vivia envolta em crises e turbulências. Bastou transferir sua sede para o Palácio Dante de Oliveira, no CPA, que as coisas serenaram no parlamento matogrossense. Agora, a Câmara dos Vereadores se transformou em palco de conflitos e escândalos. Uma energia negativa suga a boa vontade das pessoas que exercem suas atividades neste quadrante. É uma espécie de Triângulo das Bermudas das virtudes dos políticos regionais. Submerge a honradez e emergem as perfídias e a corrupção. As velhas assombrações voltam para cobrar dos vivos o seu tributo em dignidade e coerência. Dragam as qualidades de suas vítimas e só deixam a vergonha e o ressentimento. Como explicar, então, essa sucessão de escândalos que se abate sobre o legislativo cuiabano. É como se um carrasco atemporal enviasse para o cadafalso, de tempos em tempos, um condenado a execração pública. Uma forca moral se instalou por ali. E os maus espíritos empurram um a um para a desonra e para o infortúnio. É claro que os vivos podem mais que os mortos. Os corruptos assombram mais que os fantasmas. E que as maldições políticas se exorcizam com eleições. As lendas não servem para justificar as patifarias e, muito menos, as crendices podem ajudar a encobrir os escândalos praticados em nome da ganância e da luta fratricida pelo poder. De qualquer forma, vale à pena benzer o local. Água benta não faz mal a ninguém! * PAULO LEITE é jornalista e escritor