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ARTIGO
Domingo, 30 de Agosto de 2009, 01h:12

MÁRIO M. DE ALMEIDA

Falando de alma

De Camões a Guimarães Rosa, passando por Fernando Pessoa, Eça de Queiroz, Saramago, Machado de Assis, Jorge Amado, a língua portuguesa é fértil em grandes escritores e poetas, mas estes sofrem a limitação de criarem em um idioma que não é, digamos assim, exportável e universal, como o inglês, e menos falado até que o espanhol que revelou ao mundo a genialidade de um Cervantes. O autor de dezenas de obras fantásticas, mas que encontrou o seu ápice em Dom Quixote – uma literatura recheada de surrealismo, muito “louca”, porém atualíssima com seus monstros imaginários e que impregnou romancistas como o colombiano Gabriel Garcia Marquez, no que ele tem de mágico e fantasmagórico. Gabriel, aliás, é uma referência que guardo desde minha juventude, quando li pela primeira vez, no original em espanhol, o seu fabuloso – no sentido mesmo de fábula bem contada – “Cem Anos de Solidão”. Já reli o livro traduzido em português, mas a sensação prazerosa, até pelo sabor da descoberta, que permanece em minha memória é a da primeira leitura. Quem usa a língua portuguesa como ferramenta de expressão, por mais talentoso que seja, enfrenta o dilema de ser um gênio eternamente condenado a ficar preso em sua pequena lâmpada. Poucos são os que conseguem romper essa redoma de uma escrita pouco difundida pelo planeta e serem considerados, efetivamente, criadores internacionais. Na prosa ou na poesia. O português é regionalizado em um mundo cada vez mais global. Se há algum esforço para torná-lo mais conhecido internacionalmente, se restringe ao mundo dos negócios, onde o dinheiro fala mais alto e pouco espaço sobra para os valores do espírito e da literatura, que não são exportados e nem se negociam com a praticidade e rapidez dos commodities embarcados em grandes navios. Com porões lotados de minério ou de grãos. Grãos que viram farelo e tortas para encher a barriga dos porcos, cabras e vacas européias e de outras partes do mundo, ou mesmo transformados em alimentos para os humanos. Saciar a fome física sempre foi mais premente que alimentar a alma. Por falar nisso, lembremos de Fernando Pessoa: “Tudo vale a pena se a alma não é pequena”, assim se expressou o poeta lusitano, que, infelizmente, tem essa pérola restrita à língua portuguesa, pelo simples fato que não foi proferida por alguém que criasse em inglês. Azar deles, que não falam o português e não podem absorver, no sentido estrito do termo ou figurado, tudo que se encerra de singelo e ao mesmo tempo profundo nessa pequena frase, que eu classifico como obra-prima do intelecto. Um ponto alto da criação. Se Pessoa cometesse seus devaneios poéticos no idioma de Shakespeare, sua frase que sintetiza com economia de palavras, mas abundante de ritmo e rima, as muitas dúvidas e angústia sobre o que nos é lícito fazer ou não em uma sociedade tão cheia de proibições e advertências, por certo teria se transformado em uma dessas máximas universais repetidas a todo instante. Nos cafés de Paris, nos pubs londrinos ou nas esquinas de Nova Iorque. * MÁRIO MARQUES DE ALMEIDA é diretor do site e jornal Página Única www.paginaunica.com.br

Edição EDIÇÃO 16967




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