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Cuiabá MT, Quinta-feira, 11 de Junho de 2026

ARTIGO
Sábado, 11 de Fevereiro de 2012, 13h:19

MÁRIO MARQUES DE ALMEIDA

Eu, a Olivetti e a moviola

Corria o ano de 1.983, se não me falha a memória, o mês também não me recordo (sou péssimo para gravar datas), apenas está fixado na memória que eu estava em uma produtora, no Rio de Janeiro, em frente à moviola – um equipamento usado à época na edição de película cinematográfica, conferindo, imagem por imagem, ao lado de um experiente editor, um filme que se transformaria em documentário sobre Rondonópolis, na primeira gestão (antes dele se tornar governador, em 86) do então prefeito Carlos Bezerra, e do qual eu era secretário de Imprensa. Produzido por uma câmera de cinema, com lente grande angular (a que mais se aproxima da visão abrangente do olho humano), por uma equipe vinda da Bahia, foi, para mim, uma experiência inesquecível acompanhar, desde a roteirização, filmagem e edição desse documentário que seria uma das principais peças publicitárias da administração de Bezerra. Documentário que foi projetado em salas de cinema e adaptado para vídeo, também percorreu Mato Grosso. Não sei por qual razão, um profissional especialista em redigir texto para locução sobrepondo imagens onde não entrava entrevista, que era para ter ido de Salvador para o Rio de Janeiro, não compareceu à produtora e fato que sobrou para este escriba de Mato Grosso a tarefa que seria da figura ausente. - Tu não é jornalista? – em tom que me pareceu mais de desafio e questionamento do que propriamente para saber se eu sabia ou não escrever – vira-se para mim o cidadão ao meu lado, o editor do documentário, frente à dita-cuja moviola. Pego de surpresa, eu que apenas escrevia modestos “releases” para a imprensa, enrascado em situação com a qual nunca havia me deparado antes na profissão, balancei apenas a cabeça em sinal de assentimento e devo, também, ter balbuciado qualquer coisa como “sim”. Tímido e sem ocultar o temor com as consequências que poderiam advir. Carregava sempre comigo uma máquina de escrever Olivetti, que havia colocado na bancada ao lado da moviola, jamais imaginando que seria teclada (naquele tempo não havia a comodidade do computador) para aquela finalidade. “Então pegue a máquina de escrever, e vá produzindo os textos de acordo com as imagens”. Ordenou o cara, e sem a gentileza de procurar saber seu eu tinha experiência naquela “praia”, que é de redação específica e diferente da linguagem para mídia impressa, à qual estava acostumado. Acrescentando que não tinha tempo a perder, pois teria mais filmes para editar e já estava atrasado. Se a primeira imagem, sendo bonita, impressiona e diz tudo, com o primeiro texto deve ocorrer o mesmo. A imagem era de uma criança, menina de uns três anos, abrindo um sorriso de anjo, encantador, lindo de arrepiar, em meio a flores que a prefeitura tinha plantado em um canteiro na Praça dos Carreiros. Puxei a Olivetti para o meu lado, e diante da cena, tasquei: “Em Rondonópolis, planta-se flores que abrocham sorriso de criança”. O editor baiano, então de cara fechada e de poucos amigos, sorriu e exclamou: “genial!”. E, eu atônito, achando que a frase poderia ser considerada piegas e não agradasse. Virando-se para mim, de supetão: “tu fuma!” “Sim”, respondi. Ele levantou, foi em outro cômodo da produtora e voltou com dois tarugos de maconha: “toma!“ Careta que era e ainda sou, assustado com o “oferta” inusitada, eu que fumava feito um caipora, apenas disse: “Hollyood”, a minha marca preferida de cigarros, puxando o maço amarfanhado que estava no bolso do paletó. No meio do fumacê da “erva” que ele fumava, dando sorvos longos, eu prossegui “dedografando” a Olivetti. Terminada a edição, o homem da moviola procurou saber se eu queria assinar o texto, para constar na ficha técnica do documentário. Achando que, pelo fato de ser secretário municipal, não pegaria bem grafar meu nome, assinei com o pseudônimo de Mário Moreno – uma homenagem que prestei ao xará que usava o nome artístico de Cantinflas. Talentoso humorista mexicano que eu considerava e continuo considerando, pela genialidade, o Charles Chaplin latino. Hoje, passados tantos anos, uma lembrança me acode: Que será feito daquela criança de sorriso angelical, hoje uma mulher por volta de seus 35 anos? Mário Marques de Almeida é jornalista. www.paginaunica.com.br E-mail: [email protected]

Edição EDIÇÃO 16961




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