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ARTIGO
Quinta-feira, 18 de Junho de 2015, 19h:34

RENATO DE PAIVA PEREIRA

Etiqueta: Glória Kalil/Erasmo de Rotterdam

Com réguas diferentes, conforme o juiz, somos sempre medidos no meio social. Também medimos, e como, usando nossa própria escala, que é sempre a verdadeira. Uns dizem que à mesa se conhece a cultura e educação de um povo. Outros garantem que a forma como tratamos os animais mostra nosso grau de desenvolvimento. Há ainda os defensores de que as crenças, ou ausência delas, são um bom termômetro para classificar uma sociedade. Assim, existem qualificações para todos os gostos: qualidade das músicas, preferências literárias, frequência a cinema, teatro e museus; tipo de alimentação; comprometimento com o meio ambiente; preocupação com a saúde; forma como se veste e expressa, entre outros tantos. Há séculos os homens querem fazer uma boa figura no ambiente em que vivem. Não é de hoje que livros sobre etiqueta frequentam os meios mais “sofisticados”. Nos palácios reais e nos salões da nobreza sempre houve uma grande preocupação com o comportamento social. Nos banquetes as pessoas podiam mostrar boa postura à mesa, o manejo correto dos talheres, uso de copos e taças para cada bebida ou ocasião. Os modos diferenciados foram criados ao longo do tempo para separar a “elite” da “plebe”. Era necessário aprender, pois ninguém queria passar por rude perante os reis e os nobres. Os manuais de etiqueta que temos hoje (muitos adoram) são uma reprodução atualizada dos diversos textos que começaram a ser divulgados a partir do século XVI. No limite, podemos dizer que a Glória Kalil, referência nacional de etiqueta, principalmente entre os nouveaux riche, é o Erasmo de Rotterdam moderno. Por volta de 1530 Erasmo de Rotterdam escrevia no seu “Da civilidade em Meninos”: “seu cálice e faca devem ficar à direita, o pão à esquerda”. O que é muito parecido com os manuais de etiqueta que temos hoje. Mas logo à frente acrescenta: ”é feio lamber os dedos gordurosos ou secá-los no casaco. Melhor é usar a toalha da mesa ou o guardanapo”. Continua: “Não babes enquanto bebes porque isso é um hábito vergonhoso”. “Não sejas visto debruçado sobre a mesa”. “Evites, à mesa limpares o dente com a faca”. “Não é polido beber no prato, com uma colher é o correto”. “Um homem refinado não deve fazer barulho de sucção com a colher quando estiver em boa companhia”. Ensinava também, Erasmo, que a carne deveria ser tirada da vasilha comum com três dedos apenas, não com a mão inteira e que não se empunhasse a colher como se pega um porrete. Essas e outras muitas recomendações que para nós hoje parecem ridículas e absurdas, indicavam o início de “Processo Civilizador”, título do livro de Norbert Elias, publicado pela primeira vez em 1939. Estou escrevendo isso porque vi dia destes um veterano político acostumado a frequentar todos os salões elegantes daqui de Mato Grosso e de Brasília, com tantos maus modos à mesa, que preocupado com a imagem do nosso Estado lá fora, cogitei presenteá-lo com um “Guia de Etiqueta” da Glória Kalil. Depois, pensando melhor, achei mais conveniente começar com o manual do Erasmo de Rotterdam e ir progredindo devagar. Não dá para matricular em um doutorado quem ainda não terminou o primeiro grau. Não sei se ele chuta cachorrinho, se gosta de funk ou joga lixo pela janela do carro. Também ignoro se é homofóbico ou racista. Só o vi à mesa e olha que se um matuto urbanizado como eu notou, deve ter sido feio mesmo. Se for somente esse o problema dele não é muito difícil de consertar. Com um curso intensivo de dois anos ele fica bom. * RENATO DE PAIVA PEREIRA – empresário e escritor [email protected]/Blog:bemtevimos.com.br

Edição EDIÇÃO 16968




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