Está passando da conta. Estão abusando. Tirando partido de circunstâncias anômalas, nascidas de instante cultural pouco inspirado. O emprego de vocábulos estrangeiros, a três por quatro, na linguagem corrente, em letreiros, cursos, anúncios, diálogos, palestras, prospectos, folders (olha aí!), painel de rua, convites etecetera e tal extravasa os limites do bom senso. Cheira a leviandade, a desrespeito cívico e primarismo intelectual, para não dizer a completa e irretratável boçalidade. Está-se beirando as raias do estupro cultural. E com forte agravante: parte das vítimas, intoxicadas pelo modismo emoliente e corrosivo, parece aguardar pela agressão linguística com um sorriso néscio nos lábios, em posição de total descontraimento. Como se estivesse a absorver de modo irremediável e deleitoso, do texto original é claro, a recomendação contida no célebre brocardo do oeste americano: se o estupro é inevitável, relaxe ... Tem que haver explicação pra tudo isso. Tem que haver explicação para essa aceitação pacífica, sem tênues vislumbres que sejam de questionamentos, para o que anda pintando. Como entender a omissão das autoridades, dos doutos, dos órgãos formadores de opinião, das instituições que agrupam os luminares da inteligência brasileira? O pessoal parece estar anestesiado. Não dá a mínima pelota para o que ocorre. Como é que pode? Muitas as pessoas que cismam, de tempos para cá, de convidar amigos e conhecidos para um cocktail e não para uma recepção festiva, para um coffee break, e não para um café com leite rodeado de gostosas quitandas. Pedem, no serviço, um feedback - expressão que mais parece marca de presunto neozelandês - , e não um retorno de informação. Avisam que têm em preparo um book, nunca um relatório. Programam, nas empresas, um group development com vistas a alcançar o sonhado estágio de learning organization. Mandam convocar os managers para deles solicitar um paper que ajude o staff a bolar, depois, está claro, de um brain storm, ações conjugadas que mostrem aos outros estar a equipe em condições de se mostrar como um team work. O pedantismo é de tal ordem que em alguns setores a competência começa a ser medida, naturalmente pelos experts, não pela experiência, inteligência, criatividade pessoal. Pelo know how, ou, mais ainda, pelo know why profissional, pela capacidade de decorar tudo quanto é palavra arrevesada inserida nos dicionários estrangeiros da moda. Alguns conselheiros externos, com vasta quilometragem rodada na leitura de compêndios técnicos alienígenas, lobrigaram na onda vigente oportunidade de ouro para infiltrarem baboseiras administrativas, de eficácia duvidosa, mal assimiladas em leituras apressadas na literatura estrangeira pesquisada, apresentando-as aos consumidores em potencial, as empresas, em rotulagens vistosas e num linguajar carregado de sotaque. Quando, então, se transpõem os umbrais iniciáticos da tecnologia da computação, a situação ganha novas e insuspeitadas figurações surrealistas. O que o pessoal gasta nos diálogos, exposições e mensagens, pra vender seu peixe, em matéria de palavras cabulosas, que soam como aramaico nos aparelhos auriculares dos mais simples, vou te contar... A arrogância dos entendidos, em sua parvoíce travestida de sabedoria, conduz as dissertações a verdadeiros despautérios. Madeira de dar em doido, como se dizia em tempos de antanho. Qual a explicação para tudo isso? Crise de auto-estima, talvez? Ela pode levar muita gente a uma crise de identidade cultural. A basbaquice institucionalizada cria, nalguns redutos, uma sistemática negação dos valores autênticos da cultura brasileira. O modismo aconselha, com força de dogma, aos adeptos fervorosos, a entrarem em processo de êxtase diante das idéias vindas de outras plagas. E concorre para que alguns compatriotas despreparados se deixem retratar como seres inferiores, de q.i. e q.e. abaixo dos padrões. No bestunto dessas criaturas desinformadas, sem visão correta dos horizontes do mundo, sobra então a alternativa, despojada de patriotismo, de se entregarem a reverências e a encher de salamaleques o convívio com os viventes de outros lugares e celebrar, com euforia, em verso e prosa, as teorias, sempre geniais, dos outros. Um caso típico, explicado por Freud e discípulos em seus tratados, de indigência mental elevada ao cubo. Mas, voltando à questão da invasão dos vocábulos estrangeiros: querem saber mesmo, em meu modesto palpite, em boa e leal verdade de mineirão do interior, o nome certo a dar a tudo isso, definindo-a de vez? Frescura. Com todas as letras em caixa alta. The End, como é do deleite de muitos sair dizendo. * CESAR VANUCCI é jornalista (
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