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ARTIGO
Terça-feira, 25 de Janeiro de 2011, 21h:11

ROBERTO B. DA SILVA SÁ

Eruditos ou massificados

A canção “Comida” de Antunes, Fromer e Britto, gravada por Titãs e outros, já nos versos iniciais – “...A gente não quer só comida/ A gente quer comida/ Diversão e arte...” – dimensiona o significado social da arte/cultura: alimento tão salutar quanto os convencionalmente vistos como tais. Em momento de troca de governantes, outra vez trato do espinhoso tema. Os espinhos podem ser vistos já no antagonismo do título do artigo. Em situações de dilemas, penso em Cecília Meireles; em seu poema para crianças “Ou isto ou aquilo”: “...Ou guardo o dinheiro e não compro o doce, ou compro o doce e gasto o dinheiro...”. Diante de dúvidas, conclui: “Mas não consegui entender ainda/ qual é melhor: se é isto ou aquilo”. No caso em pauta, o antagonismo poderia ser ou eliminado ou minimizado. Decisões politicamente maduras desfariam o dilema. Em termos concretos, os “massificados” teriam oportunidade à erudição pelo viés da cultura e educação formal de qualidade. Todos ganhariam; até os pobres. É justamente por isso que no Brasil se acentua a dicotomia “erudito” X “popular”. Na essência, essa questão gira em torno da manutenção das classes sociais. Eis o xis do problema. Problema que voltou a ser pauta de debates. Nesse sentido, sintetizo idéias de três publicações lidas na Folha de São Paulo. Na primeira, a atriz Fernanda Torres, no artigo “Elite” (08/01), lamenta e registra: “...Há 20 anos, a cultura servia de ponteiro; hoje, anda à mercê dos acontecimentos. Somente as manifestações de massa fazem sentido porque se justificam como mercado. Erudição é um crime”. A denúncia de Torres de que erudição para todos seja crime parece se confirmar numa entrevista de João Sayad (14/01), um economista que preside a Fundação Pe. Anchieta, administradora da TV e Rádio Cultura/SP. Sob visão de gestor enquadrado ao sistema, disse: “Depois da internet, o público específico não precisa ocupar horário nobre na TV. Tenho preocupação com audiência”; e exemplificou: “Não dá para fazer programas sobre literatura barroca de Gregório de Matos porque alguém dá aula sobre isso na universidade...”. Quanta infelicidade e opção de classe num exemplo! No século XVII, Gregório era o “Boca do Inferno”, pois foi o poeta nacional que gritou contra a “Máquina Mercante”; contra as ações do “sagaz Brichote” (um possível aportuguesamento de british=inglês); ou seja, metáfora às já antigas usurpações de estrangeiros. Em suma, berrou/poetizou contra um estado entreguista. Quanto se perde em desconhecer a indignação da poesia gregoriana nos tempos coloniais! Quantas bocas se calam por essa simples ignorância! É assim que se tem forjado culturalmente um povo de bundas e não de bocas. Visão oposta à de Sayad é a do professor Eduardo Portella. No artigo “Cultura, política de Estado” (18/01), afirmou: “A cultura perde sua força vital toda vez que adota a economia como padrão ou referência compulsiva... A reversão dessa herança deve ser rigorosamente priorizada, o que exige a inclusão da cultura como trabalho social avançado”. Como filho de colonos dos grotões cafeeiros do Paraná, sei da importância da apropriação de informações filtradas como eruditas. Se em minha infância e juventude tais saberes tivessem sido negados, como se faz hoje à maioria, eu não saberia, p. ex., quem foi o “Boca do Inferno”. Eu não teria a boca que tenho. Talvez, só olhos para os faustões, hebes, bbbs... e ouvidos para os pancadões, “sertanojos” universitários... Cultura de massa é isso aí! Erudição pode ser tudo; menos crime. * ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ, Dr. em Jornalismo/USP. Prof. de Literatura da UFMT [email protected]

Edição EDIÇÃO 16967




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