A ausência da presidenta Dilma Roussef foi notada na 42° Edição do Fórum Econômico Mundial realizado anualmente no balneário de Davos, na Suíça. A agenda internacional da primeira mandatária brasileira neste início de 2012, no entanto, incluiu destinos menos pomposos como Havana, sede do governo de um dos últimos regimes declaradamente socialistas do mundo, e Porto Príncipe, capital do devastado Haiti. Em política externa a visita de dignitários a países são eventos carregados de significância e simbologia. Ao decidir deslocar-se aos países da América Central em detrimento de uma participação estrelar no Fórum Econômico Mundial, instância definitiva de debates sobre o ideário capitalista, o governo brasileiro priorizou a relação com os países caribenhos fortalecendo seu âmbito de influência geopolítica na região. A escolha de Cuba como primeiro destino se explica não apenas pela sensibilidade e importância de seu atual momento político, mas pelos vultosos investimentos brasileiros realizados na ilha de Fidel, como a obra de ampliação do porto de Mariel, orçada em quase 1 bilhão de dólares. Havana tem dado sinais sutis na direção de uma transformação em seu regime, e com muito vagar, o octogenário presidente Raúl Castro ensaia a inevitável abertura política do país. O Brasil com sua exitosa política social, economia estabilizada e governada por uma estadista que, como seu predecessor, inspira simpatia junto ao governo cubano, teria condições de posicionar-se como principal condutor deste delicado processo e colher os inestimáveis créditos internacionais pelo serviço. A agenda presidencial em seu segundo destino internacional foi igualmente pragmática e voltada a redirecionar a relação cada vez mais estreita entre Brasil e Haiti. Como é recorrente em um país assolado por diversas calamidades, as medidas de apoio ao desenvolvimento econômico e reconstrução do país foram anunciadas à imprensa pela presidenta no Palácio Presidencial haitiano, em Porto Príncipe. A novidade, no entanto, coube à nova estratégia de segurança para o Haiti, que prevê a redução gradual da presença militar no país. O Brasil comanda a Missão da Organização das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti, conhecida como Minustah, criada em 2004. A atuação do Brasil no Haiti, em especial do Exército Brasileiro, é objeto constante de elogios da comunidade internacional, e reforça o pleito do país por um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. Longe dos trópicos, no gelado balneário de Davos, o tema proposto para a reunião este ano foi a busca por um modelo de capitalismo mais justo. Os debates no Fórum Econômico Mundial concentraram-se sobre as estratégias para a solução da crise econômico-financeira internacional, em especial quanto à execução dos dolorosos ajustes fiscais e pacotes de austeridade indispensáveis ao restabelecimento das combalidas economias dos Estados Unidos e Europa. Para nós, brasileiros, na atualidade, os desafios prementes para a superação dos entraves ao desenvolvimento são de outra ordem. Por aqui as taxas de desemprego mostram-se administráveis e a dívida pública, controlada, embora crescente. No Brasil o caminho para o progresso prevê a redução consistente do déficit histórico na qualidade do ensino, a modernização da defasada infraestrutura e implementação de mecanismos destinados a agregar valor aos produtos através da inovação e tecnologia, objetivos já conquistados pelos países desenvolvidos. A centralização dos debates em Davos sobre correção de assimetrias e definição de rumos para as economias dos países desenvolvidos parece ter influenciado a decisão presidencial de dirigir-se a outra região do mundo, visando à implementação de estratégias mais concretas e objetivando colher resultados mensuráveis da execução de sua política externa. A América do Sul - e o Brasil, em especial - é percebida internacionalmente como região pacífica, em franco progresso e livre dos agudos efeitos da crise de endividamento que assola os países desenvolvidos, tradicionais titulares do poder político e econômico mundial. Os anos vindouros da década de 2010 serão cruciais para que o Brasil abandone o antigo estigma de país do futuro e assuma, definitivamente, a condição de líder global. *DANIEL ALMEIDA DE MACEDO é professor universitário
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