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Cuiabá MT, Terça-feira, 23 de Junho de 2026

ARTIGO
Sábado, 20 de Setembro de 2008, 11h:31

GUSTAVO OLIVEIRA

Ensaio sobre a Cegueira

Fernando Meirelles leu Ensaio sobre a Cegueira em 1995 e tentou convencer José Saramago e lhe vender os direitos de adaptação do livro recém-lançado. O escritor português recusou. Não por ser o diretor brasileiro então um ilustre desconhecido, mas porque acreditava que sua obra, toda ela, era intransponível para outra linguagem que não a escrita. O desejo de Meirelles se realizou uma década depois, com ele já tarimbado como um dos grandes nomes do cinema mundial. O que os fãs tanto do escritor quanto do diretor podem conferir nos nossos cinemas, com o filme Ensaio sobre a Cegueira, é que o tempo de maturação fez bem ao projeto. E o primeiro a reconhecer isso foi o próprio Saramago, levado às lágrimas quando assistiu a por ele definida “fábula sobre a degradação” iluminar a tela e seus personagens sem nome e sem pátria ganharem rostos. O filme voltou aos planos de Meirelles quando o roteirista Don McKellar e o produtor Niv Fichman, ambos canadenses e igualmente fascinados pelo livro, conseguiram convencer Saramago a lhes autorizar a versão para o cinema, assegurando que o filme preservaria os questionamentos políticos e sociológicos do autor em seu enredo apocalíptico – um misteriosa epidemia de cegueira que atinge uma grande metrópole e reduz os seres humanos à condição de barbárie. Temia Saramago que Ensaio sobre a Cegueira, em mãos erradas, de Hollywood, por exemplo, poderia virar um mero filme de terror habitado por zumbis. Respaldado pela excelente recepção de público e crítica de O Jardineiro Fiel, Fernando Meirelles foi uma escolha unânime para comandar um projeto que combinasse grande orçamento e tratamento artesanal, no qual prevalecesse o desejo do escritor e a mão do diretor. E são estes elementos bastante visíveis em Ensaio sobre a Cegueira. Meirelles conseguiu traduzir as “trevas brancas” do cenário descrito por Saramago em uma obra luminosa nos sentidos figurado e literal. Com orçamento de US$ 25 milhões, o diretor montou três bases de produção. Em São Paulo e Montevidéu, rodou as cenas em que a metrópole genérica é subitamente atingida pela epidemia de cegueira. Começa em pleno trânsito com um homem que não consegue mais dirigir seu carro ( o ator japonês Yusuke Yseya), atinge o médico oftalmologista que ele procura (o americano Mark Ruffalo) e logo se espalha por toda a população. Só escapa a personagem conhecida como Mulher do Médico (a americana Julianne Moore, em excepcional performance), condição que é ao mesmo tempo dádiva e castigo, diante dos horrores que seus olhos irão testemunhar. Uma prisão desativada do Canadá foi cenário para o sanatório onde os infectados passam a ser amontoados. Lá se juntam ao grupo uma prostituta (a brasileira Alice Braga), um garçom (o mexicano Gael García Bernal) e um velho (o americano Danny Glover). A progressiva degradação do local ilustra o que Meirelles define como a sensível pele que separa o homem civilizado do ser bestial capaz de cometer atrocidades diante de uma situação-limite – bem representado pelo personagem de Gael, líder de uma matilha que subjuga os demais roubando comida e incitando estupros coletivos. O mais perceptível mérito de Meirelles – sublinhado pelo esmero técnico dos parceiros César Charlone (na fotografia estourada que traduz a cegueira pelo excesso de luz) e Daniel Rezende (montagem que consegue recuperar o ritmo após o início claudicante) – é compreender que o universo de Saramago não trata de heróis e vilões, de punição e redenção. A personagem de Julianne nada tem de heróica, dado que talvez seja a maior vítima da tragédia e segue passos tão hesitantes quanto os daqueles que nada vêem. O diretor soube compreender que não importa a causa da cegueira. Esta é, ao fim, metáfora para chegar ao ponto: todos têm um médico e um monstro para administrar dentro de si. GUSTAVO OLIVEIRA é diretor de Redação do Diário

Edição EDIÇÃO 16967




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