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ARTIGO
Segunda-feira, 04 de Abril de 2011, 20h:51

ILSON SANCHES

Enfartes Urbanos

As ciências sociais sempre buscaram ao longo dos séculos uma sistemática que lhe desse credibilidade à semelhança das ciências exatas. A pretensão poderia até não ser tanta, mas a busca de interfaces com outras ciências sempre foram objeto de largas pesquisas neste sentido. Na economia política a interface com a matemática, a física, a química e até a medicina, por exemplo, fizeram-na buscar não só palavras analógicas utilizadas em seus conceitos, como vetores, multiplicadores, transformações, metamorfoses, fluxos, estoques, efeitos e até mesmo indicadores. E a economia não se fez de rogada buscando no direito, palavras como leis e princípios, para trazer maiores certezas em seus resultados e finalidades. A economia se subdividiu em várias ciências ligadas também à geografia como os conceitos de urbanos e regionais numa ligação igualmente com a arquitetura e a engenharia. Desta forma, a medicina em sua evolução, utilizou o conceito de sistemas e de fluxos quando da descoberta do funcionamento do corpo humano como um sistema fechado. Este, composto de, basicamente, dois fluxos: o venoso e o arterial, a economia incorporou sob a denominação de fluxo monetário e o fluxo real. Isto fez François Quesnay (1694-1774), um médico da corte francesa de Luis XV, na França, elaborar o que foi denominado de escola fisiocrática, já como economista, construindo o sistema econômico publicado em sua obra “Tableau économique”. Atualmente utilizamos tais conceitos para conhecer e aprofundar conhecimentos da microeconomia e da macroeconomia em sua dinâmica de funcionamento. E, transformar o conceito de sistema numa metodologia importante para vários setores da ciência. Incluindo-se o sistema urbano. Daí, nos permitirmos uma analogia com o que vemos hoje nas ruas de nossas cidades brasileiras e invariavelmente nas da Capital. Um fluxo de automóveis, motos, bicicletas, caminhões, tratores e pessoas, não em apenas uma direção como o corpo humano, mas em desordenadas direções determinando causas e efeitos que obstruem, se chocam, provocam acidentes, em combinações variadas. Fatos que emperram o funcionamento que deveria ser normal dos órgãos públicos e privados, tornando-os doentes. O que compromete o funcionamento do sistema urbano como um todo, até mesmo provocando derrames e tensões, como pressão alta, que acaba por contaminar outros órgãos e minam sua sustentabilidade com infecções decorrentes de um desvio de acessibilidade. E, ainda, muitas vezes a construção de pontes (de safena) e de viadutos já não mais reduz as externalidades negativas provocadas, tornando infrutíferas e equivocadas as soluções provisórias apresentadas em curto prazo, sem planejamento adequado que mais obstruem do que favorecem a acessibilidade urbana e a governança. Ou ao contrário até mesmo conduzem a uma infecção generalizada. As intervenções ou cirurgias resultantes de longo ou até de longuíssimo estudo ou planejamento já se tornaram anacrônicas. Os paliativos já não fazem mais efeitos, pois os coágulos provocados já conduziram a uma gangrena, cuja solução exigida só faz restar a recomendação de amputação e o uso de muletas que, com certeza, promoverão mais lentidão ao tráfego. No sistema urbano os buracos, que ainda não tem coletivos na língua portuguesa e com tantos agora, que passam a ter necessidade disso, ou mesmo as crateras que destroem os automóveis e ônibus. Os meios de locomoção são então atingidos e emperram os fluxos trazendo amplos prejuízos econômicos, sociais e pessoais e que são absorvidos pelos cidadãos que não têm a quem cobrar ou recuperar. Há, daí, um amplo aumento do risco-cidade. O que pode suscitar ações judiciais coletivas, como as ações civis públicas com status de constitucionalidade. Os remédios agora são paliativos, pois as soluções definitivas dependem de outras ações mais efetivas. Precisamos, na verdade, de um amplo trabalho coletivo de U.T.I. Intervenções que deverão fazer parte das opções públicas, principalmente, para não mais provocarem a produção de verdadeiros franksteins urbanos, como vinculando vias e artérias que mais prejudicam do que solucionam. Exemplos desta natureza são abundantes, e é o que de mais comum ocorre. São artérias com grande fluxo que desembocam em ruas estreitas que não absorvem o volume de tráfego em circulação. E, acabam e ainda causando enfartes urbanos que podem matar o paciente: a cidade e seus cidadãos. *ILSON SANCHES é Advogado e Professor Universitário www.ilsonsanches.com [email protected]

Edição EDIÇÃO 16962




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