O maior problema da música brasileira na época da ditadura era seu jeito de hino, que às vezes enchia o saco. Lembro de O Bêbado e o Equilibrista de Aldir Blanc que foi tomando um rumo até virar um hino e enjoando de vez. Na época era politicamente incorreto dizer isto e ai quem ousasse fazê-lo numa mesa de bar, num debate cultural etc. Seria excomungado pela patota que formava a opinião corrente. Tudo tinha regra naqueles tempos. Lembro do Henfil falando como tinha que ser o humor. O povo de esquerda não podia ser vítima de piada que seria humorista de direita. Só podia rir da turma da direita. Um dos hinos da época e que refletia de forma dura a falta de perspectiva da juventude era a bela canção de Belchior que não encheu o saco. Ouço até hoje com saudade e reflexão. Além da dura reflexão Viver é melhor que sonhar tinha uma constatação triste na sua letra de que Eles venceram e o sinal está fechado para nós que somos jovens. Talvez o enunciado mais duro que uma geração tenha ouvido. Pior que a guerra, é ser derrotado nas idéias. E foi desta música que lembrei quando vi o resultado da reunião do comitê que fixa o juro no Brasil esta semana. Toda imprensa já tinha dado e eu inocentemente acreditei que estes picaretas do Banco Central não iam cometer uma loucura destas. Nunca imaginei que estes caras iam romper o ciclo de crescimento do país. Itamar Franco foi um grande presidente brasileiro. Simplista, falou uma vez que o Brasil só iria para frente se um dia abrisse a Caixa Preta do Banco Central. De onde estes caras tiraram que aumentar o juro vai deter a promessa de inflação colocada. Nosso presidente é ignorante no assunto e abriu mão desta coisa chata que é governar para ficar em campanha sete dias da semana dentro do seu aviãozinho que comprou para brincar. O eles do título são os banqueiros e a burocracia do Banco Central que estão tocando a política monetária brasileira. Os primeiros acordaram hoje um quarto de um por cento mais ricos. Todo patrimônio deles está em títulos selicados ou emprestados para o governo que hoje amanheceu pagando a mais pela papelada podre que emite todo dia para empurrar sua dívida para frente. Tudo em nome de um combate a uma inflação que se avizinha. Os segundos cumpriram o papel de atender os primeiros. Esta inflação tem origem na oferta quando estamos tendo problemas de abastecimento de alguns produtos ligados a fatores conjunturais do setor agrícola. Temos algumas commodities com preço fixado no mercado internacional sofrendo ataques especulativos e/ou pressão da demanda internacional. E de demanda com aumento de renda no país por conta de transferências públicas de renda, aumento do crédito e conseqüente aumento do consumo de setores como o automobilístico e eletro-eletrônicos, por exemplo. O que pode fazer um aumento do juro contra estas causas aí de cima? Nada. Receberei puxões de orelha via e-mail falando que pode conter o crédito. No Brasil o crédito dos bancos para a população nunca foi baseado no juro que o governo paga a eles. Ou tem alguém financiando carro a onze por cento ao ano? Assim como os juros do BNDES para o setor produtivo também não tem esta relação sendo sempre mais baixo. Talvez tenhamos um único ponto que pode ajudar no combate à inflação. Tal operação vai acabar de matar o dólar e contribuir decisivamente para aumento das importações que poderão aumentar a oferta. Não estranhem se encontrarem nas mesas do Choppão cerveja belga em vez da maravilhosa Antártica brasileira. E aí vamos cumprindo nosso papel de voltar a ser uma economia primária, orgulhosos de vender grãos e minério de ferro para os asiáticos. * PAULO RONAN é economista
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