ARTIGO
Quinta-feira, 13 de Março de 2008, 20h:35
A
A
PAULO LEITE
Eles querem pouco
Do alto de sua longa vivência parlamentar de 25 anos, o senador Jonas Pinheiro dizia que o povo é simples e quer coisas simples, como moradia, saúde e alimentação. Ele tinha razão. As pessoas comuns anseiam apenas uma vida digna. Esperam do poder público somente atenção e respeito aos seus dramas cotidianos. Nada mais do que um teto para morar, ruas sem buraco, remédios no posto médico, vagas na escola do bairro, segurança e água tratada. Ou seja, o mínimo que o Estado deve ofertar aos seus cidadãos. Parece pouco. Mas é muito para milhões e milhões de excluídos que habitam favelas, palafitas e periferias. Essa gente quer pouco. Quer o básico para sobreviver e para ter esperança. Eles são brasileiros, como nós, mas que não têm acesso à internet, não lêem jornais e mal compreendem o que ouvem no rádio e assistem na televisão. Mas, estão aí. Resistindo à miséria e à imprevidência. Eles sonham com goiabada cascão como eternizaram João Bosco e Aldir Blanc nos versos da canção Marcha-Rancho. Quem tem fome tem visões oníricas com um pedaço de carne, com queijo e goiabada. Porque a vida das pessoas simples é simples como elas. É prosaica como os becos e as ruas mal iluminadas da periferia, onde a miséria se espreita em busca de suas vítimas urbanas. A fome e o desprezo das autoridades gritam na alma dos oprimidos. O povo não quer metáforas, quer feijão e arroz na mesa; não quer saber de estratégias de marketing, quer respeito; não quer mais ouvir planos mirabolantes, quer a simplicidade das soluções rápidas. Por tudo isso, a criação de factóides como a implantação do chamado contrato de gestão dos secretários municipais de Cuiabá, imposto pelo prefeito Wilson Santos aos seus auxiliares, soa como uma verdadeira bobagem. Uma absoluta falta do que fazer. Uma atitude inócua e incompreensível, incapaz de retocar a imagem dos gestores locais. No ímpeto de se tornar espetacular e moderno, Wilson consegue no máximo ser espetaculoso e imediatista. O contrato de gestão é uma balela, um escárnio. Ninguém em sã consciência vai acreditar que esse expediente poderá modificar a qualidade da administração municipal ou mesmo poderá ter o condão de agilizar as metas do prefeito. Além do mais, o critério de escolha dos secretários não é técnico, mas político. A avaliação de mérito pretendida por Wilson Santos deve ser explicitada e os pesos para tal escrutínio devem ser divulgados de forma clara para a sociedade. Senão será puroenchimento de lingüiça pré-eleitoral. Com toda essa prosopopéia, esse papo furado, o prefeito está se desviando do foco, que deveria ser uma responsável prestação de contas de seu primeiro mandato. Com esse mote extravagante, não conseguirá se dirigir de forma objetiva e plausível para as pessoas simples. Elas não sabem e não querem saber o que é contrato de gestão. Elas querem solução para o transporte coletivo, para a violência e para o setor habitacional. O prefeito ainda não soube se comunicar com esse eleitor. Ao contrário, seu principal adversário na disputa pela prefeitura de Cuiabá, Walter Rabelo, sabe como poucos chegar aos ouvidos da massa. Ele fala de maneira simples e direta. Fala o que o povo quer ouvir. Enquanto Wilson prefere adjetivar e criar figuras estranhas ao entendimento das pessoas comuns. Como diria o filósofo contemporâneo Abelardo Barbosa, quem não se comunica, se trumbica! * PAULO LEITE é jornalista e publicitário