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ARTIGO
Quarta-feira, 20 de Fevereiro de 2013, 21h:18

ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ

Educados para o medo

Como previ em outubro/2012, a Mangueira quase foi para o segundo grupo. Seu samba era mequetrefe. Seu enredo “desomenageou” Cuiabá. Agora, findados os gritos e as “gastanças” do carnaval, quero pensar sobre os desdobramentos da denúncia que o Ministério Público de São Paulo (MPE) apresentou contra 72 estudantes da USP. Em 27/10/2011, policiais militares, em patrulha, não souberam distinguir um crime de um pequeno delito. Por isso, prenderam três estudantes que usavam maconha dentro do campus. Por conta disso – e sabedores das ações da ditadura militar –, um grupo de estudantes ocupou a reitoria daquela instituição. De sua parte, a administração da A USP, para garantir a reintegração de posse, solicitou o aparato bélico do Estado. Em 08/11/2012, mais de 400 policiais da tropa de choque, da polícia montada, do GOE, do GATE, além de helicópteros, cercaram o prédio e prenderam as pessoas que ali estavam. Imediatamente a esse violento desfecho, até então inusitado no “Brasil democrático” do sec. XXI, uma Assembleia Geral dos Estudantes foi realizada. Cerca de 4 mil acadêmicos votaram a favor de uma greve, que se estendeu até o início de 2012. As reivindicações centrais foram: fim do convênio da USP com a PM/SP; criação de um grupo para discutir outras formas de segurança interna; renúncia do reitor João Grandino Rodas; não-punição administrativa dos estudantes. Nesse sentido, conforme publicou o jornal O Estadão de São Paulo (07/02), “parte dos 55 estudantes denunciados pelo MPE por formação de quadrilha e mais quatro crimes na ocupação da reitoria USP, em novembro de 2011, foi absolvida, na semana passada, em processo administrativo movido na instituição. De acordo com a defesa dos acusados, a decisão da comissão de professores foi tomada antes da apresentação da denúncia à Justiça, na terça-feira (05/02). Além deles, mais 17 pessoas – incluindo funcionários – foram acusados não só por formação de quadrilha como por posse de explosivos, dano ao patrimônio, desobediência e crime ambiental por pichação. A denúncia foi para o Fórum Criminal da Barra Funda, onde será analisada por promotor e juiz”. Como eu disse no início, essa denúncia – mais uma tentativa de criminalizar e silenciar os movimentos sociais – veio entremeada por gritos e berros de foliões embevecidos. No entanto, por mais esticados que sejam, os carnavais acabam. A “vida normal” segue seu curso, sem máscaras... E – resguardando as devidas diferenças – “a vida normal” de hoje segue, em termos didáticos, de forma semelhante ao que o “status quo” do século XVIII proporcionou ao país, ainda no regime colonial. Naquele momento, punições e castigos públicos impostos a um grupo formado por uma maioria de intelectuais – adeptos dos pensadores iluministas e, por isso, questionadores também dos altos impostos cobrados pela Coroa Portuguesa – serviram como as primeiras e grandes lições de como deveríamos ser medrosos para sempre. Na figura de Tiradentes, morto e esquartejado, a lição do medo chegou ao ápice. Hoje, essa denúncia do MPE contra esse coletivo da USP serve como exemplo geral; ou seja, se aqueles estudantes forem punidos judicialmente, o Movimento Estudantil poderá perder ainda mais a capacidade de indignação e organização política. Poderá ser a morte simbólica da luta dos jovens acadêmicos. Com essa denúncia, reforça-se o cultivo do medo, elemento arraigado em nossa cultura, e tão bem observado por Drummond, no poema “O medo”: “Em verdade temos medo.../ Nascemos no escuro.../ E fomos educados para o medo...” *ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ - dr. em Jornalismo/USP; prof. de Literatura/UFMT

Edição EDIÇÃO 16960




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