ARTIGO
Quinta-feira, 27 de Janeiro de 2011, 21h:28
A
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LUIS F. SABÓIA R. FILHO
E o tempo levou (1)
A cidade de Cuiabá cresceu desordenadamente, inconscientemente, abusivamente, trazendo consigo toda uma perda de qualidade de vida, o que é lamentável. Diante desta realidade, os cuiabanos de Tchapa e Cruz foram perdendo suas referências existenciais, tendo como consequência o risco de se perder toda uma história cultural. Refiro-me aos desaparecimentos de becos, nome de bairros que foram mudados, pontes e vielas que sumiram, praças que desapareceram e casas históricas desabaram, é como se Cuiabá tivesse passado por uma catástrofe e tudo o que foi citado acima deixou de existir. Exemplos: Beco do Candiero, Tanques do Baú, Rua de Cima, Rua do Meio e Rua de Baixo, Bairro do Mundéo, Terceiro de Dentro e Terceiro de Fora, Ponte da Prainha, estes locais eram referências para todos que nasceram e moravam em Cuiabá até a década de 70, uma cidade não pode viver sem memórias dos seus locais, muitos deles palco de acontecimentos históricos, políticos e culturais. Cuiabá, em meus tempos de menino e mocidade, era cidade hospitaleira, algo inocente, caracterizada pelos seus quintais, ricos em mangueiras e cajueiros. A vida corria mansa, sem os sobressaltos dos dias atuais. Havia nela a meiguice da simplicidade, do falar típico cuiabano, todos se conheciam e procuravam respeitar as tradições da terra. A violência urbana não fazia parte do cotidiano, as neuroses da vida moderna eram insignificantes no processo existencial das pessoas. Os cuiabanos tinham escola pública de qualidade, os mestres de conhecimentos sólidos, humanistas, para citá-los é importante lembrar-se dos professores Nilo Póvoas, Cezário Neto, Francisval de Brito, Rafael Rueda, João Crisostomo, Ranufo Paes de Barros, Gastão Muller, Anabil Lobo, Paulo Henrique Vilas, Sebastião de Figueiredo, Professora Aída de Figueiredo, essas pessoas deram-me base para que eu pudesse estudar Medicina na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Outros locais de referência aos cuiabanos era a Santa Casa, Estádio Presidente Dutra, Igreja da Matriz e do Rosário, Rio Coxipó e Cuiabá, Cine Teatro Cuiabá, Cemitério da Piedade, o Bairro do Porto. Vejo com preocupação, a presença de meninos de rua, os flanelinhas, os drogados, as gangues, pessoas do mal passando por gente de bem, políticos que quando sorriem lembram-me o Conde Drácula, fortunas que nascem e crescem do dia para a noite trazendo consigo toda uma arrogância ignóbil, e com isso Cuiabá vai perdendo lentamente e inexoravelmente a sua principal característica que é a generosidade. A cidade ficou cheia de gente exibicionista, e como disse Nelson Rodrigues, o grã-fino brasileiro tem saudade do subúrbio tendo estas pessoas uma fina camada de verniz. A Indústria do culto a personalidade é comprada na antipática palavra socialite, transformando o ambiente social numa comédia humana digna de Balzac. Assalto a bancos, latrocínios, boca de fumo, eram termos que o cuiabano conhecia através de jornais da grande imprensa carioca e paulista, e nesse compasso a apartheid social tende a aumentar, fazendo Cuiabá tornar-se uma cidade de desconhecidos. Cuiabá despojada e alegre já não mais existe, transformou-se em um ringue de lutas e ambições inconfessáveis. * LUIS FELIPE SABÓIA RIBEIRO FILHO, Médico Cirurgião na Santa Casa de Cuiabá, Professor Adjunto IV da Clínica Cirúrgica da UFMT, provedor da Sociedade Beneficente da Santa Casa de Misericórdia de Cuiabá