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ARTIGO
Terça-feira, 09 de Abril de 2013, 20h:17

CAROLINE RODRIGUES

É dia de feira

As estruturas são montadas bem cedinho, quando ainda está escuro, porque logo os primeiros clientes chegam. Muitos nem sequer foram em casa ainda. Acabaram de sair das boates e bares da cidade. As meninas carregam os traços da maquiagem no rosto e os rapazes a cara de cansaço. Eles são responsáveis pela primeira venda nas barracas de pasteis, caldo-de-cana e demais alimentos prontos nas feiras livres, que acontecem nos bairros no domingo. Em seguida, chegam as primeiras donas-de-casa em busca dos melhores produtos. Frutas, verduras, carne, doces e até mesmo baldes e chapéus são comercializados nos pontos. No final de semana, retomei a visita à feira e vi que o passeio sempre vale a pena. As minhas compras costumam ser poucas, mas a variedade de histórias que trago na sacola é grande. Descobri que os feirantes falam com muita frequência as palavras: orgânico, sem conservantes, natural e saudável. Nem sempre eles sabem o que é isso, mas têm a certeza que o oposto disso está disponível nos supermercados. Assim, os conceitos, se é que posso chamar assim, saem das páginas de revistas e ganham um caráter popular. Muitas vezes, os termos fazem parte das rimas, que são cantadas para atrair os fregueses. Tem vendedor que traz o diferencial no gogó. Ele também faz paródias engraçadinhas quando passam as meninas bonitas, que acabam de sair da missa ou dos cultos. Elas respondem o gracejo com absoluto desprezo, mesmo assim, o ambulante não se dá por vencido e já prepara o canto que será entoado quando a próxima passar. Na feira, também tive a oportunidade de ver uma coisa inusitada. Um homem que vende remédios em gotas. A pessoa fala onde está doendo e na mesma hora ela tira um vidro da bolsa e espalha algumas gotas no local. Em seguida, dá uma esfregada e anuncia o valor do tratamento. Vi um motociclista sendo atendido. Ele recebeu três gotas no ombro e pagou R$3. Em seguida, disse que já estava se sentindo melhor. No ar, ficou um cheiro forte de cânfora, que o vendedor diz ser essencial para a cura. Ainda na área medicina, não podemos deixar de falar do raizeiro. Nos saquinhos, ele vende verdadeiros milagres. Tem folha para tudo, dor de cabeça, problema de circulação, diabetes e impotência sexual. Apesar das diversas indicações, os preparos mais procurados são contra obesidade. Neste ramo, vale a quantidade de ervas, de sete a 36, depende do comprador. A diversidade não para aí. Tem o homem que arruma fogão e carrega todos os apetrechos na bicicleta. O cliente contrata o serviço na feira e o prestador de serviço pedala até a casa. É por essas e outras histórias que a feira sempre vale a pena. Mesmo com as gambiarras na eletricidade, falta de banheiro e sujeira. É sem dúvida uma manifestação popular importante e que precisa de mais atenção. Aos leitores, fica o convite. Incluam a feira na agenda para o fim de semana. CAROLINE RODRIGUES é editora de Cidades

Edição EDIÇÃO 16967




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