Rivelino disse certa vez que Pelé foi e ainda é o melhor do mundo porque sempre jogou para frente. Raras vezes fazia aquele toquinho de lado. O mundo, às vezes, também como o Rei, anda para frente. Vamos aos poucos vivendo outros tempos e a turma insiste em não entender isso. Um comando de 11 pessoas invade um hotel de luxo em Dubai e assassinam um alto dirigente do Hamas no final de janeiro agora. Não me interessa o curriculum do morto ou de quem se trata. Os outros, sei tratar de assassinos frios, canalhas covardes. O conflito entre o Hamas e israelenses existe, tenho opinião formada sobre ele, mas o teatro de guerra não é num quarto de hotel de Dubai. O numero de 11 israelenses para um palestino até que bate com o que se vê no campo de batalha, mas ai é outra estória. Todas as suspeitas recaem sobre o Mossad, o serviço secreto israelense. Isso já foi normal. Hoje não é mais. Esta independência dos poderosos serviços secretos em sair por ai matando gente e produzindo ações hollywoodianas mundo a fora foi o que emblematizou a Guerra Fria. Era país aliado? Entra e opera a vontade. Não é coisa só do cinema a assessoria que recebia a turma na Ásia dos gorilas da KGB russa para torturar soldado americano. O mesmo pode se dizer da CIA ensinando a turma no Afeganistão a torturar russo. Inclusive teve uns que aprenderam bem o oficio, uns tais de Osama Bin Laden e um tal de Mulá Omar. Já ouviram falar?. Putin envenenou um desafeto em um restaurante de luxo de Londres há poucos anos. A polícia inglesa está na cola dele e o que parece que era uma brincadeira ficou séria para ele. E assim será daqui para frente. Acabou o automatismo na política internacional. A Inglaterra desde o fim da segunda guerra sempre foi um escritório de representação do Departamento de Estado americano. Mudou. Blair foi acompanhar Bush na aventura do Iraque e está pagando caro, inclusive respondendo como criminoso de guerra em processos promovidos por entidades do terceiro setor. E é esta mudança de ares que o Mossad e Israel não entenderam. Os assassinos que por enquanto não se tem a certeza que estavam a serviço deles, estavam todos com passaportes europeus. Dos 11 sete são nomes de cidadãos de Israel, mas que não tem nada ver com a estória. E ai que começam as suspeitas. A ousadia e o modus operandi já indicavam desde o primeiro dia de investigação que era coisa deles. Assim que o delegado (ou coisa parecida) de Dubai já insinuava com o corpo ainda quente. Saiu nos jornais daqui. Pois bem. Os países de onde supostamente saíram os passaportes se movimentaram. Vejam que coisa maravilhosa. Escrevo com alegria este parágrafo. A diplomacia inglesa convocou o embaixador e exige explicações do que fazia passaporte britânico falso nesta estória. Inglaterra convidada para integrar uma investigação conjunta do caso com a França, Alemanha e Irlanda já abriu a sua. Dublin também convocará o embaixador. O governo de Israel seguindo o script da época da Guerra Fria à época protegidinho pela antiga União Soviética e pelos EUA não se pronunciou. Estes silêncios deles me matavam naquela época. Aquela arrogância até quando eles estavam certos era um terror na minha cabeça. É o nada a declarar de um ministro da ditadura daqui. Mas agora mudou. Responderão a governos. Gente da união européia. O assassinato foi um terror. Mas a reação foi maravilhosa. O fato do ano. Pegou de surpresa a todos inclusive aos acusados. Foi uma benção. Por fim uma nota triste. O grupo de assassinos teria recebido ajuda de um palestino. Ai não tem como não lembrar da frase do final do filme de Emir Kusturica, Underground, sobre a Guerra entre Croatas e Sérvios e que já foi citada aqui na coluna. Guerra para ser guerra irmão tem de matar irmão. * PAULO RONAN é economista
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