MÁRIO M. DE ALMEIDA
Campo Grande, a Capital do Mato Grosso do Sul é famosa, Brasil afora, por não possuir vida noturna. Representantes comerciais e outras pessoas que, por questões de negócios ou outros motivos, viajam com freqüência para lá, reclamam do fato que por volta das 11 horas da noite, não se encontrar mais um restaurante aberto sequer. Esse ambiente de monotonia faz parte do cotidiano de lá desde há muitos anos, parece estar entranhado nos hábitos da cidade como se fosse uma questão cultural perene e que jamais irá mudar a sua face pacata, fazendo com que Campo Grande mais lembre a imagem de um grande dormitório urbano. Atualmente, de uns anos para cá, já melhorou um pouco essa rotina de cidade fantasma à noite, e nos altos da Avenida Afonso Pena, por exemplo, nas imediações do shopping de lá, aos fins de semana, funcionam alguns bares e lanchonetes, porém são casas que tem como principal público consumidor, a gurizada da classe média. Esses estabelecimentos, pelos padrões de serviço que oferecem, estão focados para atender um segmento (o formado pelos mauricinhos e patricinhas) que pode aquecer algum consumo local nesse setor de bares, restaurantes e boates, mas não estão preparados para receber um público mais adulto, com o perfil de renda e idade para viajar para outras cidades e participar, por exemplo, de uma Copa do Mundo. Que não se resume, obviamente, a ir aos estádios e torcer por sua seleção, mas são pessoas que, geralmente, unem o útil ao agradável e aproveitam o ensejo para visitar pontos turísticos, o que inclui circular pela noite... Nesse aspecto, Cuiabá dá de goleada em Campo Grande porque tem uma tradição já histórica de possuir uma vida noturna mais agitada, fervilhante, e isso vem de antigamente quando os points eram o Tabariz, Bar Internacional e os balneários e dancings Sayonara e Santa Rosa todos já extintos, mas marcaram época e foram substituídos por outras casas, não menos movimentadas. Feita as comparações, imaginem os leitores a modorra, o pé no saco que seria participar de uma Copa do Mundo em Campo Grande, com os turistas muitos acostumados à vida cosmopolita sendo obrigados a ficar, à noite, encerrados em hotéis por pura falta de opção de locais divertidos e movimentados para frequentar. Se sentiriam tal qual prisioneiros em uma cidade que não possui sequer um lugar como o cuiabaníssimo Choppão que nem porta tem e permanece aberto a noite toda, de segunda a segunda. Aqui, a gente dorme com as galinhas, como uma espécie de mantra, muitos campo-grandenses repetem a frase em reforço à idéia de que as pessoas costumam se recolher cedo naquela cidade, ou seja, logo após o escurecer. E galinhas, como se sabe, empoleiram e vão dormir assim que o sol se põe no horizonte. Nessas condições, se Cuiabá não fosse, merecidamente escolhida com uma das subsedes e sim Campo Grande, teríamos não a Copa do Pantanal, mas a da chatice. * MÁRIO MARQUES DE ALMEIDA é diretor do site e jornal Página Única
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