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ARTIGO
Terça-feira, 29 de Março de 2011, 20h:21

ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ

Do fardo ao enfarte

Há alguns dias recebi dois importantes textos: a matéria “Com estrutura precária, aulas da UFAL (Univ. Fed. de Alagoas) são suspensas no Sertão”, extraída da Gazeta Web, e um artigo publicado no Espaço Aberto da ADUFMAT (Sind. dos Docentes/ UFMT), assinado pela Prof. Dra. Marta Pignatti. A matéria tem início com a transcrição de um enunciado, proferido pela reitora da UFAL em nov/2008: “Agora o Sertão vai virar mar; um mar de conhecimento e novas idéias para futuras gerações”. Com essas palavras – uma alusão à profecia de Antônio Conselheiro (líder do exterminado núcleo de Canudos/BA), imortalizada pelo escritor Euclides da Cunha e popularizada pela canção “Sobradinho” de Sá e Guarabyra –, foi lançada a pedra fundamental para instalação do campus universitário em Delmiro Gouveia/AL. Esse campus é uma das concretudes do programa (eleitoreiro) de Reestrutura e Expansão das Universidades Federais (Reuni), criado por Lula, que precisava fazer a sucessão. Fez: “Rousseff lá”. Contudo, hoje, a realidade aniquila a retórica: o sertão não virou mar de conhecimento. Conforme denunciam docentes e estudantes, naquele campus tudo é improviso, a começar pela estrutura: uma escola estadual. O transporte ao campus é precário. Há poucos livros numa “biblioteca” improvisada. Faltam professores. Pululam alunos em salas lotadas. Pobres das futuras gerações! Esse quadro-negro é a foto da herança maldita dessa irresponsável massificação universitária. Na verdade, tudo por um voto, que somado a outro e mais outro ajudou a eleger uma presidente. Já eleita, independentemente de seu gênero, ou de seu meigo e maternal coração, de suas habilidades em manusear a faca e quebrar ovos para fazer omelete em programa de TV, a nova nossa senhora desta macunaímica terra, de tesoura às mãos, já estabeleceu cortes no orçamento; também das universidades federais, hoje, “enquadradas” e comportadas “como nunca antes na história deste País”. Diante das imposições do Reuni, somadas ao corte orçamentário do “novo” governo, a UFMT, mesmo sendo já consolidada (mais de 40 anos) também colherá seus frutos: azedos, amargos e podres. Que o digam o Decreto Presidencial 7446, a Portaria Ministerial 257 e o Ofício Circular n. 4 da Pós-Graduação/UFMT: todos de março deste ano; todos enquadrados pela contenção orçamentária. Tais reduções, somadas à praga do congelamento salarial por dez anos, não minimizaram a carga de trabalho dos docentes; ao contrário. Nunca o produtivismo, a competitividade, o pragmatismo, o individualismo e um cala boca geral vincaram tão forte em nossa convivência. Vamos, assim, nos estraçalhando. Vamos adoecendo coletivamente. Vamos enfartando um por vez. É nesse doentio contexto que o artigo de Marta chega, somando-se a outros que vêm denunciando a sobrecarga de atividades pós-Reuni. Todavia, seu texto escancara, agora com nome e sobrenome, o enfarte sofrido por uma colega, em “meio ao turbilhão de compromissos de ensino, pesquisa e orientação” na UFMT. Marta explicita, com pertinência, o sobre-trabalho docente; enfatiza a obrigação pela busca de títulos, de financiamentos para projetos, viagens a congressos e publicações... Transformados em captadores de recursos e gerenciadores desses – além de professores, orientadores, escritores e pesquisadores que já somos –, vamos adoecendo. Logo, além de outros males, somos candidatos ao enfarte, ou seja, ao prêmio máximo pela DE: Dedicação Extrema. Quem será o próximo a enfartar? Abaixo o sobre-trabalho nas universidades brasileiras! *ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ - Dr. em Jornalismo/USP e Prof. de Literatura/UFMT [email protected]

Edição EDIÇÃO 16962




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