ARTIGO
Quinta-feira, 13 de Março de 2014, 22h:04
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BENEDITO PEDRO DORILEO
Do degredo à procura
Sirva-te isso de lição soava o castigo imposto aos infamados pela corte portuguesa para despejá-los na colônia brasileira; repetindo o despotismo quando vestiu a alva em nossos heróis, condenados por aspirarem à liberdade. Semelhante, no decorrer do tempo, em duro corretivo, quando o governo brasileiro cominou pena para o desafinado da ideologia ou do regulamento militar. Em Cuiabá quantos servidores públicos chegaram reclamando da remoção com sentido de corretivo ou de irrogação de disciplina? Foram tantos, que, vivendo em nosso verdejante cerrado, preferiram aqui permanecer, agasalhados pelo abraço hospitaleiro o amor foi o desagravo. Outrora, a imagem lá fora de Mato Grosso era a do território selvático e inóspito, dominado pelo indígena, pelas doenças tropicais, pela terra improdutiva e pela completa descomunicação. Quando o adolescente cuiabano fora aceito no internato do conceituado Colégio Adventista Brasileiro em São Paulo, foi surpreendido, na abertura do ano letivo em grande auditório, com o depoimento sobre o Estado de origem. Saltou logo um estudante do sul do nosso território indiviso para falar apenas da sua pujança, a salientar a excelência da terra roxa. Inconformado, o jovem pediu a palavra dizendo-se do norte-mato-grossense, sustentando a capital como guardiã no ermo da Pátria, e a capacidade dos seus filhos na cultura, na economia da agropecuária e na visão do potencial amazônico. O companheirismo normalmente aconteceu no ambiente escolar, no refeitório ou nos belíssimos jardins do CAB; entretanto percebia-se uma estória arraigada. Era distorcida a impressão oferecida à meninada da época sobre o território nacional e a sua população autóctone, dona do território, que foi esmagada pelo colonizador a mando dos dominadores portugueses; da mesma forma como aconteceu com o homem negro, preado e trazido. Não foi o brasileiro que instalou a escravidão do brasilíndio ou do africano não existe culpa , foram os lusitanos. Os conquistadores conseguiram em dois séculos despovoar o virginal novo mundo, a ferro, fogo e doenças. É preciso ler BR500, de Chico Alencar (ed. Vozes), em suas flagrantes páginas de O Diário de um Degredado: Choramos alto, soluçando forte, e até os índios choraram conosco: fomos abandonados de vez, a expedição seguiu. E nós ficamos inseguros e angustiados, descobrindo o Brasil. A expedição de Cabral desprezou em nosso território recém-conhecido um prisioneiro, um degredado de nome Afonso Ribeiro, logo refugado pelos nossos nativos, mas que aqui ficou. Darcy Ribeiro costumava brincar que teria direito hereditário ao trono brasileiro, pois a primeira família luso-tupiniquim foi a dos Ribeiro. O resultado da vivência desse primeiro brasileiro fez construir o imaginário Diário, com base em tremenda realidade. Cuiabá teve sempre na distância o maior obstáculo, como no exemplo da ferrovia que aqui chegaria desde o século XVIII, entregue a políticos rendidos pela falta de coragem cívica. Se um avança e projeta, esbarra noutro bisonho ou improficiente. Os Estados Unidos e a Rússia venceram os canyons ou as geladas montanhas, interiorizando o trem; em contrário, geograficamente o Brasil é favorecido. Os indômitos cuiabanos, ainda que isolados, mantiveram a cidade, acreditando no futuro, tal como retomaram Corumbá dos paraguaios. Decorridos anos, Cuiabá é hoje a fonte da procura. Antes chegaram os nordestinos, depois os sulistas e outros do país, gente desenvolvimentista, que, na capital ou no norte do Estado, somam o mesmo ideal. Providencial, a miscigenação e a troca cultural são necessárias. A pioneira UFMT, casa da universalidade, pode testemunhar o grande fenômeno de Mato Grosso renovado, que aplaudiu a sua divisão territorial em 1977, para oferecer ao Brasil um povo cioso da contribuição econômica. Uma verdade distante da xenofobia deve ser conceituada: vamos mesclar em rodízio os dirigentes do poder do Estado: o mato-grossense e o cuiabano autóctones na alternância de governo com os novos, compondo pacto político, em atendimento ao tempo histórico. O 8 de abril aproxima-se com os 295 anos da pátria cuiabana de Rondon. *BENEDITO PEDRO DORILEO é advogado e ex- reitor da UFMT