ARTIGO
Quarta-feira, 28 de Novembro de 2012, 21h:46
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HEITOR FREIRE
Do celibato clerical
Nos primórdios da difusão do Cristianismo havia uma pureza de sentimento e de ação que elevava a um grau de alta espiritualidade o trabalho desenvolvido pelos primeiros cristãos. Essa pureza foi o fator da disseminação muito rápida da doutrina cristã, e representava a semente que Jesus deixou plantada. Com o passar dos tempos, os poderosos de então reis e imperadores tiveram suas atenções voltadas para essa nova forma de ser e de agir preconizada pelo Cristianismo nascente, ganhando muitos adeptos para essa nova doutrina e que passou a ser um meio de conscientização das pessoas proporcionando-lhes uma liberdade no agir e no pensar, e uma independência dos governos reinantes. Constantino I, imperador romano no século IV, inicialmente procurou combater o Cristianismo de todas as formas. Logo, percebeu que a força que inspirava o movimento era tão profunda e verdadeira que, orientado pelo espírito que mais tarde inspiraria O Príncipe, de Maquiavel, decidiu se unir aos seus antigos opositores subvertendo e corrompendo a pureza destes para obter o domínio também sobre o movimento cristão. Tanto é assim, que, no ano de 325 Constantino I convocou ele mesmo um concílio, o Concílio de Nicéia. Compareceram 310 bispos. A partir daí, gradativamente a Igreja começou a ser submetida ao império da vontade de Constantino. No tempo e na história, se observa que a Igreja se afastou da pureza de sentimento que inicialmente inspirou e guiou os cristãos e seus dirigentes máximos. Um fato marcante dessa distorção aconteceu com os cátaros, um povo pacífico que vivia no sul da França e norte da Espanha, que seguiam religiosamente os ensinamentos de Jesus: não tinham hierarquia religiosa, acreditavam na reencarnação, não havia entre eles propriedade privada, tudo era de todos e trabalhavam em cooperação total. Com o tempo e a influência que passaram a exercer, no século XII, a partir de 1140, os cátaros tiveram a sua extinção decretada pela Igreja imperial, que não admitia que ninguém ousasse se contrapor aos seus desígnios, mandando uma força-tarefa de trinta mil homens fortemente armados, contra um povo ordeiro, que foi totalmente dizimado, num verdadeiro genocídio. Sou de formação católica. Fui crismado aos 28 anos e aos 33 participei de um cursilho da cristandade. A história da Igreja sempre mereceu de mim um estudo acurado, portanto posso dizer que conheço relativamente bem a Igreja e por isso me atrevo a escrever este artigo. Pretendendo modernizar os seus ritos, a Igreja cometeu outro grande erro: quebrou a sua egrégora quando mudou o sistema de celebração da santa missa: colocando o sacerdote de frente para o público. O ritual obedecia a um ordenamento próprio cabia e cabe aos assistentes acompanharem a celebração, assistindo-a porque a missa não é um espetáculo teatral, é uma celebração religiosa. A Igreja só vai começar a atingir a plenitude da sua missão, no meu entendimento, quando aceitar a reencarnação e eliminar o celibato clerical. A reencarnação foi eliminada por imposição de Teodora, mulher do imperador romano Justiniano e que comandava a Igreja Católica. Assim, constatamos: a Igreja Católica continua causando uma influência negativa na vida das pessoas por sua forma impositiva e obrigatória de determinar o comportamento de todos. Veja-se, por exemplo, a questão do celibato clerical, que é uma determinação antinatural, que contraria totalmente a natureza do homem e também a da mulher, no caso das ordens clericais femininas. E contradiz ainda o mandamento bíblico: crescei e multiplicai-vos. A única denominação religiosa do mundo que exige o celibato de seus ministros é a Igreja Católica. O celibato foi instituído aos poucos; foi defendido em força pelo Quarto Concílio de Latrão (1215) e pelo Concílio de Trento (1545/1563) foi tornado obrigatório. Os casos profundamente dramáticos do crescente tema da pedofilia têm como causa principal o celibato. A pedofilia na Igreja transformou-se em um problema sistêmico. O sacerdote católico se vê premido pela exigência da sua condição sexual e não tendo como lhe dar vazão, acaba praticando atitudes tanto heterossexuais quanto homossexuais e os padres se veem na contingência de um dilema existencial: obedecer ao que sua natureza exige e impõe ou submeter-se a uma disciplina rigorosa, castradora, anuladora? E pelo andar da carruagem, a situação continuará sendo regida pela incompreensão e pela rigidez de um sistema ultrapassado e opressor. *HEITOR FREIRE corretor de imóveis e advogado www.heitorfreire.com.br