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ARTIGO
Sexta-feira, 10 de Julho de 2015, 20h:10

SEBASTIÃO CARLOS

Diálogo na areia quente

São dois velhos amigos, aposentados no serviço público do Estado. Transformaram em hábito, que se consolidou ao longo dos vários anos, o encontro semanal num mesmo boteco da cidade. Lá se reúnem para beber o chopezinho gelado de sempre e para falar sobre tudo e sobre nada. Chamemo-los de Zeca Mato Grosso e de Dito Chapa Branca. Apelidos que os acompanham há muito tempo. Aliás, desde um tempo que é constante referência para eles pela simples designação aos governadores Fernando Corrêa e João Ponce. Para eles, depois desses dois, a política em Mato Grosso nunca mais foi a mesma. Mas, afinal, falar sobre o que mesmo em mesa de bar? De modo que, sem grandes convicções, borboleteavam entre a tríade mais poderosa e dominadora nesse tipo de reuniões: mulher, futebol e política. Com o tempo passaram a concordar que na idade deles falar sobre mulher era mero exercício de ficção. O futebol também já não é o mesmo. Assim que dentre os três sérios assuntos, restava a política. E foi por isso que o assunto das últimas semanas pousou naquela mesa com a alacridade dos pássaros pantaneiros. A conversa, entreouvida na mesa ao lado: Dito Chapa Branca (DCB) – E então quais as novas? Zeca Mato Grosso (ZMG) – Ora ... o que mais ... esse prende e solta do Riva. Uma hora o homem tá algemado, outra solto com tornozeleira e depois solto novamente e já dando entrevista em casa. DCB – É verdade, mas dizem que isso foi por outro processo que ele tem. ZMG – Falam que têm mais de cem. Então vai ficar nesse entra e sai? O que quê esse? DCB – Agora que foi um impacto danado esse homem ser preso, isso foi, né não? Desde o meu tempo nunca tinha visto deputado mais poderoso que ele. Foi presidente da Assembleia quantas vezes quis, secretário-geral outras tantas. Ninguém igualou ele nesse quesito. Desde que foi eleito a primeira vez em 92 todos os governadores procuraram ser seus aliados ... ZMG – Que ele é danado, isso ele é. A Assembleia seguia ele. Pra onde ele apontava todos olhavam. Também não me lembro de ter visto nenhum deputado tão forte como ele ... . DCB – Mas veja só, ele não chegou lá sozinho. Teve ajuda de muita gente. Dos eleitores e de seus colegas. Ele saiu de menos de quatro mil votos para quase cem mil. E foi eleito presidente e secretário durante todo esse tempo. Sempre por unanimidade. ZMG – Pera aí, Dito, você não tá defendendo o Riva, né? Não tem cabimento ... DCB – Agora de quê? Xômano, o que tô dizendo é que agora tá parecendo que ele fez tudo sozinho. Nem que fosse o mandrake. Achar que ele fez tudo sozinho não acho certo não ... ZMG – Já pensou se ele resolve entrar nessa de delação premiada? DCB – É ... vai ser um estrago danado ... rss. ZMG – O fato, meu caro, é que as coisas estão acontecendo aos poucos nesse Brasil. Tinha que chegar a Mato Grosso, mais cedo ou mais tarde. DCB – E é bom que estes acontecimentos não sejam por iniciativa do governo ... ZMG – Pois é. A justiça enfim tá chegando pros de cima também. Não vê essa Operação Lava Jato? Quem diria que os homens mais ricos do Brasil iriam alguma vez sentir o cheiro do xilindró? DCB – Esse juiz do Paraná é mesmo muito bom. Como é mesmo o nome dele? ZMG - Sérgio Moro. E o Ministério Público Federal, nem se fala, uma atuação supimpa. A PF também está funcionando legal mesmo. DCB – Será mesmo que vamos começar a viver um tempo em que a lei não será apenas para os três P? ZMG – Três p? DCB – Pobre, preto e puta. ZMG – Tenho cá ainda as minhas dúvidas. Mas é preciso confiar ... mas nem tanto. O povo tem que ficar atento. DCB – Certo. A turma do outro lado é muito esperta. Descuidou, eles voltam. Ou melhor, nem saem de cima. Veja o caso do mensalão. Ainda estava sendo denunciado e a turma já começava a montar o petrolão. ZMG – É verdade. Vamos confiar, mas ficar atentos. O que não podemos é ser como o Fagundes, - lembra daquele nosso colega de repartição? – acreditava em tudo que diziam pra ele, tudo tava muito bom pra ele e, no fim, ele só se danou, aposentou-se na pior. ZMG – Ele era como aquele sujeito que estava caindo do 10º andar e quando passou pelo 3º disse pra si mesmo: “oba, até aqui, tudo bem”. Rss. DCB – Rss. O Fagundes era demais, mas não era o único. Tá na hora. ZMG – Até a próxima. * SEBASTIÃO CARLOS GOMES DE CARVALHO é advogado, professor e historiador.

Edição EDIÇÃO 16965




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