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ARTIGO
Quinta-feira, 02 de Maio de 2013, 21h:36

CESAR VANUCCI

Desfazendo mitos e preconceitos

As cotas deram certo. Uma década depois, a política de inclusão de negros nas universidades brasileiras explode em resultados surpreendentes. É o que asseguram num trabalho jornalístico de grande fôlego e do melhor quilate, estampado na ISTOÉ de 10 de abril, os jornalistas Amauri Segalla, Mariana Brugger e Rodrigo Cardoso. A reportagem mostra que os cotistas vêm conseguindo notas mais elevadas que a média dos alunos. Nos vestibulares, têm-se saído tão bem quanto os não-cotistas. No que lhes toca, os índices de evasão são baixos e a maioria já sai da Escola com emprego garantido. Tem mais: graças às cotas, a qualidade do ensino brasileiro melhorou. E a vida de milhares e milhares de brasileiros se transformou. As considerações alinhadas desmontam mitos e preconceitos, ainda hoje utilizados nos argumentos dos que, equivocadamente, se contrapõem à sábia política de inclusão social perseguida com o regime de cotas. É bastante sugestivo anotar os mitos e as verdades levantados no substancioso estudo. Um mito surrado é o de que as cotas estimulariam o ódio racial. A verdade apurada em pesquisa nas universidades federais é de que 90 por cento dos educadores entrevistados são de parecer que as cotas não estimulam jeito maneira o racismo. Outro mito derrubado: o de que os cotistas largariam a Universidade no meio do caminho. Os fatos demonstram que a evasão entre cotistas e não cotistas se equivale. O exemplo do curso de Medicina da UERJ elucida bem a coisa. Em 2004, 94 candidatos a médicos passaram no vestibular, 43 deles cotistas. Da turma, 86 chegaram à colação de grau em 2010. Dos oito desistentes, quatro eram cotistas e quatro não cotistas. Outro mito, inspirado em rançoso preconceito, que também não sobreviveu à realidade dos fatos: as cotas viriam comprometer o nível de ensino, degradando o currículo das Universidades. A análise de especialistas revelou que o desempenho de cotistas e não cotistas é parecido. Em não poucos casos, a performance dos cotistas mostra-se até superior. Na UERJ, a comparação, ao longo de 5 anos, assinalou nota média de 6.41 para os cotistas e nota 6.37 (ligeiramente pior, está visto) para os não-cotistas. Na Unicamp, segundo palavras textuais dos autores do trabalho “os alunos que ingressaram na Universidade por meio de um programa parecido como de cotas (e que estimulou a inclusão de negros) superaram seus colegas que não tiveram esse beneficio em 33 dos 64 cursos.” Outro mito jogado estrepitosamente por terra: com as cotas o vestibular teria discrepâncias. “A pontuação dos alunos aprovados como cotistas seria muito menor que a pontuação dos candidatos aprovados pelo sistema tradicional. Pior: ficariam de fora candidatos que tiveram notas muito mais altas do que os cotistas.” O que despontou foi algo bem diferente. De acordo com dados do SISU (Sistema de Seleção Unificada), as cotas favoreceram, em 2013, 36 mil estudantes. Na disciplina mais concorrida, a nota de corte dos cotistas foi de 761.67. A dos não cotistas foi de 787.56. Diferença de apenas 25.9 pontos, ou seja, 3 por cento. Os repórteres vaticinam que as próximas gerações vão experimentar transformações ainda mais substanciais graças à aprovação recente pelo Senado Federal do projeto que regulamenta o sistema de cotas e que prevê que, até 2016, vinte e cinco por cento do total de vagas nas Universidades federais contemplem estudantes negros. Esse é um dos caminhos, queira Deus indesviáveis, que o Brasil vem percorrendo na invasão do futuro. * CESAR VANUCCI é jornalista [email protected]

Edição EDIÇÃO 16966




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