ARTIGO
Terça-feira, 23 de Agosto de 2011, 18h:54
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GABRIEL NOVIS NEVES
Deixar a poeira baixar
Certa ocasião, conversando com o dr. Fernando Correa da Costa, ele me disse: - Menino, o melhor remédio que existe na medicina é o tempo. Ele cura! Passei a ouvir, nas minhas dificuldades de aprendizado na enfermaria da Santa Casa do Rio de Janeiro, que o tempo cura! O presidente que inaugurou a duplicação de letras em nomes de batismo foi o Collor. Ao ser enxotado da Presidência da República pelos seus atuais amigos, e após conferir as horas, repetiu uma frase famosa prevendo o seu triunfal retorno ao poder: - O tempo é o senhor da razão. Com o escândalo no Ministério dos Transportes, ressurgiu um antigo provérbio muito nosso conhecido: Deixa a poeira baixar. Todos se utilizaram do tempo para se salvar, inclusive da recentíssima faxina ordenada pela presidente nos seus ministérios. Faxina é um termo antigo, e provavelmente a presidente o ouviu muito em casa quando criança. Faxina é o tempo da limpeza. Tem prazo de validade, que é curto. Imagino que nos próximos quatro anos as faxinas serão semanais, com direito a publicação dos seus resultados aos domingos na revista Veja. Emblemático do efeito tempo é o fato do ex-presidente deposto por suposta corrupção (foi inocentado pelo Supremo Tribunal Federal), ser companheiro do líder dos caras-pintadas no Senado. São senadores da base de sustentação do governo - Collor e o líder dos caras-pintadas. Única mudança entre os dois foi na cor dos cabelos. Nessas ocasiões, lembro-me de um personagem do Jô Soares. Um jovem sofrera um grave traumatismo de crânio sendo transportado para uma UTI e induzido por anos a um coma medicamentoso. Às vezes os médicos superfializavam o coma retirando os tubos de entubação anestésica. O paciente recuperava a consciência para os fatos de anos passados. Cada resposta a uma sua pergunta, o paciente piorava. Não suportando o sofrimento com a realidade, pedia aos médicos, pelo amor de Deus, que colocassem os tubos novamente. Preferia continuar inconsciente a digerir o que acontecia no país. No primeiro teste da retirada dos tubos o paciente perguntou aos médicos: - Em que ano estamos? - 1986. - Qual é o nome do general que está de plantão na Presidência da República? - É o presidente do partido da revolução. - Boa! O poder está voltando aos civis. -Não é bem assim... -Como assim? - O presidente do partido dos militares saiu do partido da revolução para enfrentar uma eleição indireta como vice, no Congresso. - Ah!, então o povo não votou? - Sim, pelos seus representantes... - Mas eu perguntei quem era o presidente e não o vice, que parece mais "primeiro damo." - O presidente do Brasil é ele, sim. - Por favor, me expliquem melhor essa situação. Cada vez entendo menos o que se passou nesses vinte anos que estive em coma. - Calma, Jô! No dia da posse o presidente eleito com o aval dos militares faleceu, e o seu vice assumiu para governar com os seus inimigos, na tarefa de redemocratizar o Brasil. - Doutor, me atenda: coloque logo os tubos! Isso aconteceu num passado recente. Agora um famoso banqueiro, que esteve durante algum tempo no inferno do poder e da polícia, disse que está esperando a poeira baixar para continuar trabalhando no setor de petróleo e gás. Chamem o Samu! Quero um tubo para retirar a minha consciência, mesmo indo para uma UTI do SUS. Deixe-me lá, até a poeira assentar. *GABRIEL NOVIS NEVES é médico e ex-reitor da UFMT