ARTIGO
Terça-feira, 03 de Julho de 2012, 20h:57
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ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ
De um sonho a um pesadelo
Pra não dizer que não falo de flores, quando vejo algo positivo logo, diferente do entulho produzido diariamente pela mídia, tento não deixá-lo passar em branco. Por isso, hoje, comento o Profissão Repórter (PR), da Globo: 26/06. Sob liderança de Caco Barcelos, repórteres-mirins tematizaram o Sonho da Universidade, partindo de três enfoques: 1º) situação das instituições federais (95% em greve desde 17/05). Medicina/UFRJ serviu de exemplo à tragédia; 2º) dificuldades dos egressos da escola pública, que têm de trabalhar para pagar cursos em faculdades particulares; 3º) situação de bacharéis reprovados no exame da OAB. Sobre as condições degradantes das federais o que contraria discursos do governo registro que nunca a mídia, com destaque à TV, dispensara tanto tempo a matérias positivas à greve. E não me venham falar em mídia antipetista aproveitando o ano eleitoral. Isso é piada para ignorante rir; afinal, a mídia nunca lucrou tanto com propagandas do governo. O fato é que, diante do caos, nossa greve já ocupou os lugares mais nobres na TV. Até agora, não fomos agredidos por pleitear melhores salários, reestruturação da carreira e condições dignas de trabalho. Parece que há percepção geral de que a nossa luta é necessária para salvaguardar a própria sociedade de um futuro desastroso. Nesse sentido, sobre as condições de trabalho, as imagens gravadas no HU/ UFRJ que são semelhantes às de outras federais falariam por si; todavia, o PR dialogou com dois acadêmicos de Medicina que contribuíram com vídeos e relatos para as pertinentes denúncias. A maior preocupação dos futuros médicos é com a iminente (de)formação, diante de tantos problemas estruturais. Quanto aos egressos da escola pública, o PR escancarou o que já se sabia. A maioria é pobre, mora em lugares periféricos/insalubres, trabalha por miseráveis salários, que ficam quase integralmente nas contas bancárias dos grupos proprietários das indústrias de diplomas, embora reconhecidas pelo MEC. Raramente, esses alunos trabalhadores têm tempo para leituras complementares. É uma verdadeira e explícita (de)formação acadêmica que a quase ou a nada os levará. Desse conjunto, sem falar no fracasso da formação dos cursos de licenciatura, grande parte cursa Administração. Logo, um dos espaços acadêmicos onde ocorrem os maiores ludíbrios, como ofertas de várias disciplinas pela internet. É a continuação cíclica de um fracasso geral do ensino. Na prática, terminar um curso assim é o mesmo que enxugar gelo sob 40º. Pior: a maioria ludibriada pelas propagandas governamentais está enxugando gelo com o dinheiro público, via ProUni e Fies. Mas se Administração em faculdades particulares é o caos, dobre isso quando pensar em cursos de Direito. Para a maioria dos bacharéis, o diploma não traz evolução profissional, muito menos salarial. Motivo: não mais do que 25% dos formados conseguem aprovação na OAB. A maioria nunca será Advogado. Nesse sentido, o PR foi emblemático. Apresentou dois exemplos comoventes. Um vendedor de automóveis já fazia o exame pela oitava vez. Uma secretaria, pela quarta. Esta, depois de mais um fracasso, desabafou em prantos: Se a gente fizer as coisas pela metade, a gente é fracassado (sic.). E eu não sou fracassada. Eu vou até o final. Não importa se é a quinta, a sexta (vez), mas eu ainda vou ter a minha carteira da OAB. Isso é sonho ou pesadelo? Até a repórter se condoeu com o choro da bacharela. E o que faz o MEC, o maior responsável por isso? Continua no silêncio dos justos. *ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ - dr. em Jornalismo/USP e prof. de Literatura/UFMT