Bocaina, na Estrada Real, município de Rio Acima, é a única passagem na Serra Gandarela entre Ouro Preto e Santa Bárbara. Ali, escravos fugitivos atacavam as tropas portuguesas que transportavam o ouro saqueado aos mineiros para reluzir as cortes europeias. O misticismo da Bocaina mexe com o inconsciente do povo que habita o universo das cidades, vilas, montanhas e vales de Minas. Agora, também desperta interesses ao povo mato-grossense, que pergunta no silêncio da individualidade de seus cidadãos: onde fica esse lugar de nome estranho que levou para sempre o Engenheiro das Águas? Esse engenheiro foi a Minas matar saudades. Só não sabia que sua terra o esperava com recepção espiritual diferenciada, reservada aos seus mais ilustres filhos ausentes. Ao lado da Bocaina o engenheiro civil e professor universitário aposentado Domingos Iglesias Valério, de 83 anos, fechou o grande livro de suas realizações profissionais em Mato Grosso, onde escreveu um dos mais importantes capítulos da moderna engenharia civil. Seu adeus insere-se ao contexto da fragilidade humana. No entanto, a frieza da morte não o apaga da memória coletiva nem rouba seus exemplos. Em Mato Grosso o nome Iglesias tem vários sinônimos, sendo o principal Defesa Civil, função essa à qual se dedicou com empenho, profissionalismo, lisura e paixão. Mato Grosso não deve chorar pelo adeus de Iglesias. A morte de um grande homem é sempre menor que sua obra e seu legado. Ao invés de lágrimas os homens públicos e as novas gerações da engenharia civil precisam de equilíbrio emocional para se inspirar em seus dignificantes exemplos. A marca da competência profissional de Iglesias associa-se a grandes empreendimentos de interesse mato-grossense, a exemplo do Aproveitamento Múltiplo de Manso e na ponte rodoferroviária sobre o rio Paraná, na ferrovia da América Latina Logística. Sua têmpera tinha a componente honestidade, que o fazia resistir às investidas de corruptos que tentavam usar calamidade pública em benefício próprio. As brumas das Alterosas se juntaram no entorno da Bocaina, cobriram-na com cortina abrindo passagem ao céu a um dos pilares da moderna engenharia civil mato-grossense. Por mais cidadão do Brasil que fosse, Iglesias era mineiro e Minas jamais permitiria que um de seus mais ilustres filhos partisse de outra terra para o reencontro com o Pai. EDUARDO GOMES é jornalista
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