Observando o encontro das águas do Tapajós com o Amazonas e os barcos em incessante vaivém, fiquei matutando sobre a visão de Estado dos portugueses. Senhores das grandes navegações, os portugueses descobriram o Brasil e espalharam seus domínios pelos sete mares. Mestres da guerra, os patrícios instalaram fortes e povoações nas embocaduras dos rios amazônicos para garantir a posse da terra, cobiçada pela Espanha. No Pará, Portugal fundou cidades, muitas com nomes que ajudavam a matar a saudade da terrinha. Assim nasceram Belém, Alenquer, Almeirim, Aveiro, Bragança, Faro, Santarém e outras, ora; pois, pois! Santarém, centro regional de prestação de serviços, com 285 mil habitantes, seis mil barcos e outras embarcações controladas pela Capitania dos Portos, universidades, terminal hidroviário, amplas avenidas, modernas construções, comércio vibrante e força política, localiza-se na barra onde as águas azuis do Tapajós se encontram com as águas barrentas do Amazonas, e descem curso comum, porém, ao longo de alguns quilômetros, separadas. Colonizadores do além-mar, escravos africanos e índios pegos no laço. Essa foi a base da formação do povo amazônico ribeirinho, gente que tem no rio sua fonte de alimento e lazer, meio de transporte, inspiração cultural, cenário para expressão da religiosidade e palco para lendas iguais à do boto cor-de-rosa, que nas noites enluaradas transforma-se em charmoso galã que enfeitiça e seduz donzelas. Na Amazônia o rio é tudo ou quase tudo. Desde a infância se aprende a remar, navegar, conhecer os segredos e mistérios das águas. Nas vilas e cidades os terminais hidroviários são os locais mais movimentados. É por eles que chegam e saem os moradores e turistas, mercadorias e o atendimento médico. Habitantes das duas margens do Tapajós ao longo de seus 851 km de extensão se fundem e se confundem com esse rio. O Brasil entreguista que se esconde sob o perigoso ambientalismo supranacional descarta a visão estratégica que levou Portugal a assegurar soberania na região Norte. O Estado efeagacista e lulático opta por bolsões de brasilidade - pouco se importando com a integração nacional - quando deveria aproveitar as águas dos formadores do Tapajós para a criação de uma grande avenida fluvial ligando Sinop e Santarém pela principal, mais segura e econômica matriz de transporte na Amazônia, que também é adotada mundialmente. Isso acontece porque para essa gente a figura de país é a daquele onde se pode manter conta secreta e a navegação que conhecem é a do mar da corrupção. EDUARDO GOMES é jornalista
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