Casamento mais interesseiro, impossível. Desde sua fundação o Partido dos Trabalhadores recebia as bênçãos políticas da igreja católica. Em alguns momentos da trajetória a dois acontecia o fenômeno da identidade única para o casal. Nascido no movimento sindical no ABC Paulista, o PT precisava se escorar numa instituição respeitada e forte, para ganhar densidade nacional. Nada melhor que cair nas graças da Santa Madre com seus pensadores progressistas. Atraídos por interesses comuns Lula e seus metalúrgicos e intelectuais subiram ao imaginário altar com Frei Betto, Leonardo Boff, dom Pedro Casaldáliga e outros. Ao longo da harmoniosa relação aconteceram duas situações distintas ao casal. Enquanto o PT crescia e ocupava espaço, a igreja murchava com a descontrolada migração de fiéis para as incontáveis denominações cristãs que brotavam da noite para o dia Brasil afora. Para os petistas o casório era verdadeiro mar de rosa. Para a ala progressista do clero, também, porque a visão comum a ambos era a social, com os religiosos dando prevalência ao mundo político sobre a missão evangelizadora. A igreja católica sobrevive a guerras, revoluções, mudanças comportamentais e tudo mais que se possa imaginar porque seu cardinalato ou alto clero reza sem trocadilho - pela cartilha da objetividade. A situação inversa do PT com sua companheira despertou o alto clero, que imagino nunca viu com bons olhos a união dos políticos com os sacerdotes progressistas, porque em suma a matiz dos petistas da cúpula não passa pela religiosidade por se tratar em sua maioria de figuras doutrinadas em regimes que negam a existência de Deus. O alto clero não brinca em serviço e há algum tempo queria o rompimento com o PT, mas não o fez para aproveitar o banquete do poder e a popularidade do presidente Lula. Agora, ao apagar da luz do governo popular ou populista do ex-metalúrgico do ABC, Suas Eminências, por meio da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) expedem carta de recomendação ao eleitorado católico para que vote em candidato que tenha respeito incondicional à vida, numa clara sugestão de voto ao tucano José Serra em detrimento da petista Dilma Rousseff, acusada pela oposição de defender o aborto. Declaradamente sou eleitor de Serra, mas vejo que o segundo turno também é uma corrida da CNBB por outro noivo, esse, conservador e carola, antes que os evangélicos esvaziem suas igrejas. Eduardo Gomes é jornalista
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